quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Minha árvore no meio do caminho, solitária


               Te respondo , no que estou pensando. Não naquela pedra solitária numa rua em Calcutá, pois ela pertence ao Anjo Malaquias , nem na outra que atravanca o meio do caminho do '' gauche" de Itabira, mas duma árvore que existe no meio da estrada que leva á minha terra natal e traz a infância de volta. — em São Gabriel, Rio Grande Do Sul, Brazil.







Minha arvore solitária

            Acordei pensando naquela árvore à beira da estrada. Naquela árvore a beira da estrada . Enraizada.Solitária.Sozinha. Alguém repara nela? Só eu, que às vezes passo por lá. Só eu, que ás vezes passo por lá. Só eu , aqui nesta prisão de aço e concreto, te envio agora meu pensamento e meu coração. Minha árvore da beira da estrada,




No meio do Caminho tem uma árvore. Tem uma árvore no meio do caminho.Tem uma árvore. No meio do caminho ter uma árvore. Tem uma árvore. Tem uma árvore no meio do caminho.No meio do caminho tem uma árvore.

sexta-feira, 29 de junho de 2018

Ensaio sobre a Musica Saudosa Maloca de Adoniran Barbosa




  1. INTRODUÇÃO

Saudosa Maloca” é composta na linguagem coloquial,com alguns erros  de português, que veremos adiante , se proposital ou não,  tradição literal do bairros Paulistanos que tem grande influência em seu linguajar, face o aporte de grande levas de imigrantes de origem italiana, onde um morador do bairro pede licença a um senhor para contar a história dali onde se situa aquele edifício (arranha-céu), foi um dia a moradia de vários amigos, que de repente o poder público, mandou derrubar e construir um prédio moderno. A dor sentida deste morador sendo contada vem à lembrança dos amigos, da felicidade sentida quando estavam sob o mesmo teto. Mesmo tendo construído “um palacete”, o terreno não era deles. Há uma construção poética, em que o desmoronamento das paredes leva um pouco de cada um junto, um dos parceiros de infortúnio quer revoltar-se, mas é impedido pelo narrador, e o apelo de um dito popular (“Deus dá o frio, conforme o cobertor”), lembra-nos que somos capazes de superar as vicissitudes e adversidades. E nos tempos atuais, mesmo dormindo ao relento, a lembrança é algo que não perdemos e  a saudade pode ser revivida e cantada.

  1. DESENVOLVIMENTO

A.   Quem é Adoniram Barbosa
                        Adoniran Barbosa (1912-1982) foi um cantor e compositor brasileiro. "Saudosa Maloca" foi seu primeiro sucesso como compositor. "Trem das Onze" é mais uma de suas músicas que retrata o cotidiano das camadas mais pobres da população urbana.
            Adoniran Barbosa (1912-1982) nasceu em Valinhos, São Paulo, no dia 6 de agosto de 1912. Filho de imigrantes italianos, Ferdinando e Emma Rubinato ainda jovem muda-se com a família para Jundiaí. Em 1924 vão para Santo André, na grande São Paulo, onde começa a trabalhar para ajudar a família. Aos 22 anos vai para São Paulo, onde se emprega como vendedor de tecidos.
            Na capital paulista participa de programas de calouros no rádio. Seu nome verdadeiro é João Rubinato, mas adota o pseudônimo de Adoniran Barbosa. Adoniran, nome de seu melhor amigo, e Barbosa em homenagem ao cantor Luís Barbosa, seu ídolo. Em 1934, com a marcha "Dona Boa", feita em parceria com J. Aimberê, que conquista o primeiro lugar no concurso carnavalesco promovido pela prefeitura de São Paulo.
            Em 1941 é convidado para atuar na Rádio Record, onde trabalhou por mais de trinta anos como ator cômico, discotecário e locutor. Em 1955 compõe o primeiro sucesso, "Saudosa Maloca" (1951), gravado pelo conjunto Demônios da Garoa. Em seguida lança outras músicas, como "Samba do Arnesto" (1953), "Abrigo de Vagabundo" (1959) e a famosa "Trem das Onze" (1964).
            Em suas obras, retrata o cotidiano das camadas pobres da população urbana e as mudanças causadas pelo progresso. Para isso, faz uso da maneira de falar dos moradores de origem italiana de alguns bairros paulistanos, como Barra Funda e Brás. Uma de suas últimas composições foi "Tiro ao Álvaro", gravada por Elis Regina em 1980.Adoniran Barbosa morreu em São Paulo no dia 23 de novembro de 1982. Os três discos levam apenas o nome Adoniran. Adoniran Barbosa morreu em 23 de novembro de 1982, aos 72 anos, pobre e quase esquecido. No momento de sua morte estavam presentes apenas sua mulher, Matilde Luttif, e uma irmã dela. Boêmio, com direito a mesa cativa no salão principal do Bar Brahma, um dos mais tradicionais de São Paulo, Adoniran passou os últimos anos de sua vida triste, sem entender o que tinha acontecido à sua cidade. "Até a década de 60, São Paulo ainda existia, depois procurei mas não achei São Paulo. O Brás, cadê o Brás? E o Bexiga, cadê? Mandaram-me procurar a Sé. Não achei. Só vejo carros e cimento armado." .

B.   Saudosa Maloca  - Música e Cifra
            Imagine-se numa rua do Brás, do Bixiga, ou outro bairro da cidade  São Paulo, imagine-se contemplando um arranha-céus, imagine-se nos anos 50 do século XX, e o crescimento avassalador, o progresso, o velho sendo derrubado,demolido, dando lugar ao novo.
            Imaginou?
            Pois bem, respire, inspire, esqueça o barulho dos carros, o bonde, o moleque esganiçado vendendo jornais, o bate estacas, esvazie a mente, e vá aos poucos envolvendo-se, e de forma lúdica, permita-se ao devaneio, enquanto um senhor de voz rouca, acerca-se e para ao seu lado, pigarreando , com um cigarro apagado á mão, chapéu displicentemente e propositalmente torto na cabeça, um terno amarfanhado, e um indefectível bigodinho, e começa a cantarolar e contar a estória  do lugar com um saudosismo.
            Para efeito deste trabalho resolvi analisar a letra em cinco partes;
Parte I – Informação ao Passante
            A personagem da música, informa ao Senhor que admirado contempla o edifício alto, que antes, naquele lugar havia uma casa velha, um sobrado típico ,de madeira ,construções estas que sobressaiam, nos bairros paulistanos com predominância de imigrantes italianos.


( F  E  Am  G  F  E  Am  E )
 
Am      E7             Am
Se o senhor não tá lembrado
     E7           Am
Dá licença de contar
     A7             Em7(5-)
Que aqui onde agora está
A7            Em7(5-)
Esse adifício alto
    A7       Em7(5-)
Era uma casa velha
       A7         Dm
Um palacete asobradado

Parte II – A Demolição

            O tratamento cerimonioso do começo, é relegado , e o narrador, busca a intimidade com o interlocutor ,o “senhor” da abordagem inicial, passa a ser “seu moço” , e como jovem deve ouvir a estória daquele lugar, o narrador solitário busca a companhia de outros dois companheiros ( Mato Grosso e o Joca) um emigrante , oriundo de outro Estado da Federação do qual tomou o nome, e o Joca , um dos tantos joão-ninguém, que a cidadae abriga, unem forças e constroem sua “maloca” . Porém o pior dia da vida deles, foi quando o dono do terreno, manda botar abaixo o casebre.


Foi aqui seu moço
                       Am
Que eu Mato Grosso e o Joca
 B7                E7
Construimos nossa maloca
        A7
Mais  um dia
                Dm
Nem quero me  lembrá
                         Am
Veio os home com as ferramentas
 E7              Am
O dono mandô derrubá
     E7                Am


Parte III - O Despejo

            Mal tiveram tempo de pegar “todas” as suas coisas, que para que não possuí quase nada é tudo. E foram literalmente para o “meio da rua” ,apreciar a demolição, e cada tábua que caía, era um punhal cravando no coração deles.  

Peguemo tudo nossas coisas
                   A7
E fumos pro meio da rua
               Dm
Apreciá a demolição
                        Am
Que tristeza que nos sentia
                B7
Cada táuba que caía
             E7
Duia no coração



Parte IV – Revolta, Resignação e Recomeço

            Nesta parte da música, Mato Grosso, mostrou sua revolta, e faz menção de protestar contra aquela ação, porém é interrompido pelo narrador, que se resignando e faz ver aos demais, que nem tudo está perdido, e podem recomeçar em outro lugar, mas o conforto vem mesmo, quando Joca, afirma: “ Deus dá frio, conforme o cobertor”.


Mato Grosso quis gritá
                Am
Mas encima eu falei:
               A7
Os homens tá coa razão
                   Dm
Nós arranja outro lugá
                                  Am
Só se conformemo quando o Joca falou :
             B7                E7
"Deus da o frio conforme o cobertor"


Parte V – Esquecimento e Lembrança

            O refrão, o narrador informa que não construíram uma “nova maloca” , dormem ao relento, na grama, e para esquecer. Esquecer!?, eles cantam a saudade de dias felizes que outrora viveram.



                   Dm
             Dm                           Am
E hoje nóis pega a páia nas grama do jardim
         B7    E7             Am
E prá esquecê nóis cantemos assim:
 
           Dm             Am
Saudosa maloca, maloca querida  dim  dim
               F             E               Am
Donde nóis passemos dias feliz de nossa vida.
 
C.   O desvio da norma culta – Erro de Português como estilo

Ele achava que João Rubinato não era nome de cantor de samba. Resolveu mudar. De um amigo pegou emprestado Adoniran e, em homenagem ao sambista Luiz Barbosa, adotou seu sobrenome. Foi assim que Adoniran Barbosa tornou-se um dos maiores nomes do cancioneiro popular brasileiro e uma das mais importantes vozes da população ítalo-paulistana.Filho de imigrantes italianos, abandonou os estudos ainda no primário para trabalhar. Foi tecelão, balconista, pintor de paredes e até garçom. A maneira de compor sem se preocupar com a grafia correta tornou-se sua maior característica e lhe rendeu críticas de gente como o poeta e compositor Vinícius de Moraes. Adoniran não deu importância às declarações de Vinícius, tanto que musicou uma poesia do escritor carioca transformando-a na valsa "Bom Dia, Tristeza".
Às críticas que recebia Adoniran rebatia: "só faço samba pra povo. Por isso faço letras com erros de português, porquê é assim que o povo fala. Além disso, acho que o samba, assim, fica mais bonito de se cantar."
O impulso na carreira de compositor veio em 1951, quando o conjunto Demônios da Garoa saiu premiado do Carnaval paulista com o samba "Malvina", de sua autoria. No ano seguinte, eles repetiram o feito, agora, com a criação de Adoniran Barbosa e Osvaldo Moles, "Joga a Chave". Começava ai mais uma parceria de anos na vida do compositor.
As pequenas crônicas da vida paulistana criadas por Adoniran com sotaque peculiar, resultado da fusão das várias raças que escolheram a capital paulista como morada, tornaram-se conhecidas em todo Brasil na interpretação dos Demônios da Garoa. "Saudosa Maloca", que o próprio autor havia gravado sem sucesso em 1951, foi registrada por eles em 1955 e gravada por Elis Regina nos anos 70. Em 2000, foi escolhida pela população de São Paulo, em um concurso organizado pela Rede Globo, como a música que mais representa a cidade..
 

Muitas são as possíveis definições para aquilo que se costuma chamar, simplesmente, de Estilística. Definições, estas, mais abrangentes, ou mais restritivas; definições que se somam ou que se opõem umas às outras. Importa apenas que fique claro o que determinado autor considera Estilística em seu texto, qual a definição que está sendo usada naquele momento. Sendo assim, que fique claro para o leitor que o termo Estilística no presente texto está sendo empregado no seguinte sentido: A Estilística como desvio da norma. Ou seja, aqui serão tratadas somente as características textuais que impliquem num desvio do padrão gramatical culto da Língua Portuguesa, transgressões intencionais com o objetivo de criar um estilo.
Para isso, nada melhor que escolher um texto de Adoniran Barbosa. Pouca gente sabe, mas o compositor de Trem das Onze sequer se chamava Adoniran. Seu nome era João Rubinato e, antes de se tornar compositor e cantor, trabalhava como ator no rádio, criando tipos. Adoniran Barbosa era um desses personagens. Com o passar do tempo, João Rubinato foi incorporando cada vez mais esse tipo, de forma a quase confundir-se com ele.
Sabendo disso, fica mais fácil compreender o porquê de boa parte de suas músicas fugir a um registro formal da língua. Afinal, Adoniran procurava cantar o povo de sua cidade. Observem a letra de “Saudosa Maloca”:Letras como a de “Saudosa Maloca” são ricas em exemplos e retratam, fielmente, a linguagem típica do Bexiga. Adoniran usou deste artifício para contar, de forma singela, pequenas tragédias cotidianas das favelas e dos subúrbios de São Paulo.
Para isso, optei por escolher a música  Saudosa Maloca, e o fato de antes de se tornar compositor e cantor, trabalhava como ator no rádio, criando tipos. Adoniram Barbosa era um desses  personagens , João Rubinato foi incorporado cada vez mais esse tipo , de forma a quase confundir-se com ele. Analisemos pois a letra , ricas em exemplos e retratam fielmente a linguagem típica do Bixiga.






Outra característica que dá sotaque ao texto é a troca do fonema /l/ pelo /r/ em algumas palavras, como em “arto”,” Ou ainda, a colocação do “i” entre a vogal e o “s” final das sílabas (como em “nóis”,ou a supressão  do ¨”r” nos verbos no infinitivo, “contá”,”esquecê” , “alembrá” ,”derrubá” “grita”, “apreciá”, “lugá”, supressão do “s” “os home” “conformemo”,”cantemo”, do “o”  pelo “u” , “fumos” e  “duia”, do “lh” pó “i” “veia”, “paia”., um cacófato “ta coa”, . O curioso é que,  não há registro de grandes erros ortográficos, com exceção dos vocábulos “encima”, “táuba” “adíficio (talvez o acento em “prá”). Isso só vem a reforçar o fato de Adoniran não ser de fato aquilo que aparenta. Ainda que ele declarasse: pra escrever uma boa letra de samba, a gente tem que ser, em primeiro lugar, anarfabeto.(grifei)
Tudo que foi escrito até aqui tem por intuito mostrar o quanto o desvio da norma pode ser importante para a formação de um estilo de escrita. Inegavelmente, as músicas de Adoniran não teriam tido a mesma repercussão se tivessem sido escritas em um português castiço, cheio de floreios de linguagem. Suas músicas não representariam aquilo que representam: o povo. Mesmo que a intenção de seu autor não fosse a de denúncia social e, sim, a de levar entretenimento a esse povo do qual faz parte. Fazê-lo rir. Eis o grande objetivo de Adoniran: o humor.


D.   A explosão Imobiliária

Ao comparar os projetos de edifícios até os anos 20 com esses da década de 1950, percebe-se, nitidamente, a diferença. Os acanhados prédios com três ou quatro andares dão lugar a torres de 12 ou 15 andares.

Se o senhor não tá lembrado
Dá licença de contá
Que acá onde agora está
Esse aditício ardo
Era uma casa véia
Um palacete assobradado

Em alguns lugares, como no eixo da avenida Ipiranga, a aparência dos edifícios lembrava mais os arranha-céus americanos. O Estado incentivava o desenvolvimento industrial, direcionando os investimentos para o setor. Era o que ocorria, por exemplo, no acesso dos empresários do ramo industrial ao crédito, que tinha juros menores do que aqueles impostos ao setor agrário.

“Mas um dia, nós nem pode se alembrá
Veio os homis c'as ferramentas
O dono mandô derruba”


            Juscelino Kubischek, presidente do Brasil de 1955 a1960, exemplifica o ufanismo da classe política da época, empolgando-se com o “espetáculo ” das chaminés (PASSOS, 1998, p. 73): “a civilização [...] precisa renovar-se, oferecendo nas torres de usinas elétricas, nas negras fitas de asfalto e nas chaminés empenachadas de fumo, o espetáculo maravilhoso e novo do trabalho de um povo que caminha e sente nos seus nervos o indomável impulso do progresso. ”
      A quantidade de novas indústrias e a formação de novos postos de trabalho
podem ter contribuído para o grande aumento populacional da época, que, por
sua vez, refletiu no aumento da quantidade de habitações produzidas. As supostas oportunidades de empregos, dadas por um mercado dinâmico, A população e a cidade cresciam, e o mercado imobiliário, nos anos 50,                                           aumentava significativamente sua produção. O slogan “a cidade que mais cresce no mundo” aparecia em diversos meios de comunicação da época, como matérias jornalísticas e propagandas comerciais (MENDONÇA, D. X. de, 1999, p. 39)
 
A conseqüência arquitetônico-urbanística desta forma de urbanização é um desperdício muito grande de espaço, fazendo de São Paulo um tapete de retalhos extremamente caótico, que se perde em cidades periféricas cada vez mais distantes. Além disso encarecem-se tanto os custos do transporte como os de instalação de infra-estrutura urbana.
Mas esta forma de expansão urbana só se tornou possível porque o poder público - populista - da época (fins da década de 40 até 64) fechou os olhos às irregularidades. Deixou de exercer sua função de fiscalização e controle sobre a expansão urbana.
Já no início dos anos 50 já se previa que o poder público jamais poderia a curto e médio prazo servir estes loteamentos de serviços e equipamentos coletivos necessários à vida urbana.
E.   As conseqüências das Perdas Materiais
 

      Todos nós já sofremos com alguma grande perda na vida, essas situações são devastadoras e podem acabar com a esperança de qualquer pessoa. Mas algumas atitudes e perspectivas ajudam a minimizar essas experiências. Em alguns casos ajudam a torná-las mais positivas: Perdemos algo e ganhamos algo em troca, ainda que seja experiência e maturidade.

“Mato Grosso quis gritá
Mas em cima eu falei:
Os homis tá cá razão
Nós arranja outro lugar
Só se conformemo quando o Joca falou:
"Deus dá o frio conforme o cobertor"


. Chore se der vontade, grite se quiser e  xingue se precisar as vezes é necessário mergulhar no sentimento que incomoda para compreende-lo e então transcendê-lo. Não estou dizendo para se entregar a para tristeza ou para a raiva, estou afirmando que não dá para negar que está sentindo isso.


“Que tristeza que nós sentia
Cada táuba que caía
Doía no coração”
 
 
F. A Dicção  do Cancionista
 
               Que Tatit me socorra, e a memoria cognitiva e afetiva da infância aflore, de quem sendo filho de musico , mesmo sendo criado no  ambiente musical, forjou em mim um apreciador dos sons, e por forca da profissão tive que aguçar a audição, mas não entendo de escalas, partituras, e como dizem meus amigos, nas rodas de pagode após as peladas, da pra ele o chocalho com bolinha de isopor, pra não atravessar.
               Par este trabalho me propus a ouvir três dicções da canção , o autor Adoniran Barbosa,Demonios da Garoa, e Joao Gilberto, sim ELE!

      Na versão cantada por Adoniran Barbosa, há predominância de violão, bandolim, a percussão soa ao fundo quase imperceptível e os versos são cantados em primeira pessoa. Há uma leve tosse do cantor, que confere um charme de boteco à versão. Na versão do Conjunto Demônios da Garoa, os maiores interpretes das canções de Adoniran, há um arranjo de samba sincopado, a introdução que é marca registrada já dá mostra do suingue que será desenvolvido ao longo da música, as cordas são proeminentes, um violão sete cordas , e o pandeiro dá um colorido especial, em que  as platinelas fazem contraponto com dicção do vocalista e o grupo de apoio no coro fazem uníssono na canção.
       Há um achado interessante , proposital ou não,  na parte em que a construção do verso é onomatopéico “ Dim-dim donde nós passemos os dias feliz de nossa vida”.Que levanta o refrão.
           
            Joao Gilberto, violão e voz, ao vivo no Teatro de Cultura Artistica de São Paulo, sobressai sobremaneira o violão do cantor, e o acompanhamento da Osquestra é secundário, dado a personalidade da dicção. As vogais são destacadas , nas demais interprteaões , o pronome pessoal ~eu~ é quase imperceptível, somente após varias audições percebe-se a epêntese –queu-.Ele personifica a cancao ou seu estilo





         “Saudosa Maloca”, fala em primeira instancia, sobre a demolição de uma casa velha, para a construção de um prédio, o velho dando lugar ao novo, ao mesmo tempo retrata a decadência e uma critica sobre o descarte, havia união e  pertencimento no casebre, dá-se lugar à impessoalidade do aço, cimento e vidro em detrimento as tábuas que caem. Há uma indignação, e também resignação que a vida continua, os parceiros de infortúnio, continuaram juntos, esperançosos e confiantes, que “Deus não nos dá a cruz maior do que possamos carregar”.   
         Adoniran falou como poucos do lugar onde viveu,suas peculiaridades, o cotidiano, foi um cronista, e muitas de suas músicas nasceram de fatos corriqueiros, com verniz lírico, de canções que ultrapassam gerações e seguem sendo cantadas através dos anos[G1] .

O desvio da norma como estilo em Adoniran Barbosa

Beatriz Fontes
Professora e jornalista
Juliana Carvalho
Professora e redatora

Bibliografia:

MARTINS, Nilce Sant’anna. Introdução à Estilística a expressividade na língua portuguesa. 3a. São Paulo: T. A. Queiroz Editor, 2000.
FARIA, Arthur. Adoniran Barbosa. Minibiografia presente na seção “Artistas do Samba & Choro”, na “Agenda do Samba & Choro” (www.samba-choro.com.br).
 





 [G1]É preciso levar em conta aqui o grau de invenção dessa voz por parte do Adoniran, de que ele também é o outro, mas bem educado, mais confortável, em relação a esse mundo que ele canta.

terça-feira, 17 de abril de 2018

Autobiografia de um futuro Escritor (Que talvez um dia venha ser)







Fragmento Um

O cheiro das flores de laranjeira, é das fragrâncias que me persegue e do nada invade minhas memórias, não,não é trauma de infância, por ter sido abandonado num tonel de lixo de um restaurante luxuoso dos avós, ou ter nascido no quintal de casa, sob o pé de laranjeira, os trilhos, o mormaço, a roupa larga e os sapatos velhos, a trouxa de roupa, os olhos mansos na dadivosa bonomia, preparando o material escolar cerzindo o uniforme puído, bolo de milho e o suco ralo, o primeiro acróstico escrito na classe com o nome da musa invisível que estudava pela manhã que apaixonou-se e casou com meu colega tímido, espinhento, óculos fundo de garrafa,cu de ferro, rico prá caralho, agora entendo porque ele ficava arrumando o material e saía depois de mim, ele assinava o acróstico aquele corno.as manhã frias, nevoentas, em que fiz poemas por encomenda, a troco de cigarro e lanche, os anos de chumbo, compartilhando pão e apitos, apressados, cúmplices, libertários, feridos,idealistas ,amantes, sonhadores,junto a fogueirinha de papel, vinagre e pano umedecido na mochila, a praia da rua e a alfândega da praia, Sorria cara estou apenas Sangrando, novas pessoas e outros pesares,sigamos... o cheiro de mijo,mofo e roupas velhas, sufoco, cadê o guri que tava aqui, não sei seu policia, paft ressoa o tapa na cara da puta , o estrado da cama pressionando as costelas, sangue nas mão, tremor nos lábios, pulsos cortado, encefalograma,desajuste, Pequenos espectros esgueiram-se pelos bueiros, buracos sob os viadutos, no exame minucioso, vê-se, apesar da osmose, que não são ratazanas, porém crianças que perambulam pela cidade,São os filhos de ninguém, órfãos de pais vivos, dormem em sarjetas, valetas, sem o colo das mães, repartem o lixo-comida, junto a sarna dos cães, eles chegam, dos becos, dos guetos, moleques esqueletos, das ruas, vielas, formam nova família, cheiram cola, fumam maconha, cantam e batucam. Sócios no vicio. Crianças... apenas! Pneus irresponsáveis e doenças que surgem do nada levam as referências, saudade não dos mortos, fato consumado, nem dos vivos, talvez um dia..., Pior é aquela que sentimos de nós.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Quem não tem cão...(Causo)

                         
Durante as férias de verão tenho por hábito voltar a minha terra, São Gabriel, Terra dos Marechais onde o churrasco de ovelha, assado no fogo de chão , o capão fica estendido numa cruz de pau , sendo temperado com uma salmorita , respingada com um punhado de folhas verdes, uma fritada de traíras pescada na hora, uma boa canha e aquele palheiro puro, pra espantar os mosquitos, na beira do fogo enquanto a cambona chia e as mariposas bailam a luz disforme das salamandras que crepitam de um pai de fogo.
Pois bem, vamos ao causo que é tarde e vem chuva, fomos de fusca, eu, meu tio e o cunhado dele, ambos pesando bem mais que cento e vinte quilos, mais as tralhas de pesca, cacaredo e mochila, o fusca veio gemia, dava estouro e nós seguimos  rumo à fronteira do estado pela duzentos e noventa a fora , o limpador de para-brisa não funcionava, minto, funcionava de maneira manual, o passageiro além de ser copiloto, tinha a missão de quando chovia, e choveu muuuito aquele dia, o mecanismo era simples, um barbante amarrado às palhetas e passado entre a ventarolas, e conforme a intensidade da chuva, aumentava ou diminuía o ritmo, lá pelas bandas de Butiá a correia dentada foi pro saco, não tinha reserva e nem auto peças nas proximidades, o jeito foi tirar a meia elástica de um dos gordos, que tinha flebite e usar como correia “provisória” definitiva. Levamos quase dez horas pra chegar em São Gabriel, viajem que se faz em até quatro horas.
Posamos na cidade, e ao raiar do sol, fomos em direção ao local da pescaria no famoso rio São Borja, chegando lá percorremos um cinco quilômetros a pé, até o local do pesqueiro, e para nossa frustração o rio tava atorada, devido a seca na região, e desvio pras lavouras, fazer o que o jeito foi tentar a sorte nos sangões que eram formados pelos baixios do rio, o parceiro do meu tio, resolveu colocar a rede de lambari prá iscar espinhel, sem camisa e só de cueca, Bueno, foi o tempo de ele entrar e sair a toda d’água, com uma palometa em cada mamica, e outra enfiada no rego, jogou-se na areia escaldante e se viu livro daqueles bichos com dentes afiadíssimos, mas como o que não tem remédio, remediado está, e ninguém mais ia entrar naquela água, as palometas foram usadas de isca.
Iscamos umas quatro linhas de fundo, e uma com boia de espera próximo ao sarandizal, e tarde passou modorrenta e quente, a noite caiu ,fizemos fogo e preparamos aquele arroz de china pobre, e sentamos á beira do fogo para comer. De repente ouvimos barulhão dentro d’agua , um estrondo, formou-se uma onda demais ou menos dois metros de altura, que atingiu o nosso acampamento, refluiu e voltou tudo a calmaria dantes, a tabuinha da linha reluzia ao brilho da lua cheia no meio do sangão, meu tio falou ,” se for o que to pensando é um dourado dos grande, que  se ferrou, e ficou preso nas raiz”, a luz esconde-se atrás de uma nuvem, foquei com uma lanterninha paraguaya, e jogou outra linha e conseguiu que o anzol pegasse na linha que prendia a tabua e foi puxando devargazinho, e começou a pesar e cortar as mãos,chamou ajuda , o compadre amarrou a linha na cintura, e foi puxando, quando aproximava-se da margem , imaginem...outro estrondo e aquilo que vinha na linha se mostrou( bah .ainda hoje me arrepiou) era uma arraia de uns oitenta centímetros de circunferência e uma cauda de uns dois metros, barriga branca e lombo preto como a noite, e com muito esforço conseguimos  tirar o bicho d’água, o compadre querendo executar a arraia com uma pistolinha 32, cada tiro batia no lombo e batia nas arvores, morreu ali e de manhã é que  fomos ver direito o que era.
  Como fusca não tem bagageiro , colocamos a raia no amarrada sobre o teto e resolvemos vir direto para Porto Alegre,porque o sol já escaldava justamente no dia mais quente do ano, andamos uns cem quilômetros e o fusca adernou pra um lado, pneu furado, troca por estepe, careca e meio murcho, liso que se passasse por sobre uma moeda podia saber o valor. E seguimos, quer dizer tentamos, mais alguns quilômetros, uma faiscadas no asfalto, o pneu simplesmente dissolveu-se, e  o aro fazendo sulco nos asfalto, vermelho vivo em brasa, ficamos parado no meio do nada, borracharia nem pensar, ainda mais Domingo, meu tio numa atitude de desespero, debruço-se sobre o fusca, e recuo logo, pelo impacto, ato continuo foi até o posta-luvas, pegou um canivetinho que cortava até pensamento, cortou rente o rabo da raia, tirou a cauda e falquejou as abas do lado ,ficando redondo, que coube certinho no aro ainda fumegante e soldou , e serviu de pneu para virmos embora, pois aquele sol todo tinha deixado o couro dela  dura como ferro.
Ainda no Enart passado nosso acampamento era visitado, sempre a atração era aquele “disco de arado” que fazíamos entrevero, que alguns juram que viam dois olhinhos se mexendo. Ah! E a cauda ficou de recuerdo, uso como antena de televisão, nunca mais paguei TV a cabo, e tenho mais de quinhentos liberados, e nunca passarinho algum pousou nela, por causa do ferrão que continua ativo.
Bueno acalmou-se a chuva, vou buscar o bragado ,para uns tiros de laço, lá pras bandas da Lagoa da Maria Rosa, dizem que é assombrada, mas isto outro causo.Inté.

É isso. 


João de Deus Vieira Alves

domingo, 6 de agosto de 2017


 PROGRAMAS PARA O ENSINO DA LÍNGUA PORTUGUESA





Vinheta Narrativa



 I – Tema: Sua história...seu poema...” Eu prefiro contar uma história real, vou contar a minha...” – 25/05/17 ( 00:20:30). O aluno estão sentados em círculos. Caroline comenta que houve batida na vila e “esculacharam” o Pai dela que é trabalhador. Christian "rapper" e MC, sempre de boné, quer ser policia, mas se não der “Sor” vou ser soldado do tráfico e “morrê” numa vala como meu irmão, trocando tiro com os “homi”, é intemrropido por Ketlin, mas ele era vida louca. Ewerton baixinho esperto; “Sor”, sou homem e não covarde. Moniki , mesmo que eu tente esquecer a alma guarda. Tainá com o joelho apoiado na cadeira e rabiscando o caderno, cenho franzido, tenho nojo de ir visitar o Pai naquele lugar, Tuane tímida perdeu o pai assassinado, e a mãe dela faz com que seja a babá dos irmãos menores e empregada domestica, e só pode estudar a noite com auxilio de uma lanterna, enquanto a mãe “trabalha” á noite, mas mesmo assim ela _ acha-se demais pró seu quintal“ vou ser Professora de Espanhol”, Paulo o galã da turma,vai sair da favela e voltar de cabeça erguida, “pois favela e lugar de guerra e paz” , e Dionathan , grandalhão,quieto e desengonçado ri de tudo, antes de bater o sinal,Christian fala para o Grupo” Depois de tantas perdas a gente não chora mais ,primeiro o coração sangra e,depois as lágrimas vem , quando vem”. “Bate o sinal do recreio, eles saem voados, rindo e brincando, e o Professor fica em pé no centro da sala, sentindo o gosto do sal na boca, fruto de  algum “cisco” que lhe quebrou o vidro dos olhos”.  


“Prova de Língua Portuguesa” – 07/04/17 (00.35.18). São vinte e seis alunos matriculados, vinte e quatro regulares e duas inclusões.  A professora anuncia que conforme cronograma da Disciplina haverá prova do trimestre. Há um murmúrio geral. As classes estão dispostas lado a lado, em fila indiana frente à mesa da professora. Stephanie protesta que não teve para estudar. Micaela ri baixinho e cochicha o suficiente para que todos na sala escutem. “ficou na avenida até as três com os guris , só no energético e funk proibidão”. A professora pede silêncio. Revisa o conteúdo ,  sujeito, verbo, o uso dos porquês, acentuação, monossílabos, oxítonas, paroxítonas,etc... o texto a ser interpretado e a música de Gilberto Gil – Domingo no Parque- que ninguém conhecia. Distribui as provas e grita para o Joelson desligar o celular,tirar os fones do ouvido. Vai até a porta ,e antes de fechá-la , acena para um funcionário da escola que está conduzindo um cadeirante com Síndrome de Down , que ficará no pátio até o término da aula. Após começarem a prova, a professora vai até o fundo da sala onde uma menina ficou de costas para turma , e coloca uma prova na sua mesa e um lápis em sua mão, ela fica olhando para o vazio, ela é portadora de autismo e  tem o palato aberto, e sua salivação e em consequência a baba,causa repulsa em alguns alunos da turma.


“Sala de Audivisual” -19/05/17 (00.40:32) Mais Canções de Temática Afro. A Sala é pequena é aconchegante, poltronas confortáveis, onde se jogam displicentemente, Thainá e Moniki brigam com Ketlin e Cristhian pelo lugar do fundo, e após a dificuldade inicial do Professor em lidar com o computar multimídia, Tauane vem em seu socorro  assume controle e coloca no canal de vídeos da Internet.Youtube. São apresentados os versos da Canção Negro Drama recitado pelo cantor Seu Jorge. Ewerton, Paulo e Moniki não gosta. Acham chato e paradão. Negro Rei do Cidade Negra causa estranheza. Ewerton ,o menorzinho da sala exclama: Pô Sor mais negro se f....Identidade de Jorge Aragão , alguns da letra, e outros nãogostam da imagem. Sorriso Negro de Fundo de Quintal, acalma um pouco os ânimos , as gurias pedem para colocar um clipe de um cantor inglês  ruivo aquele, Ed Sheeran,  ganhador de vários prêmios. Os guris vaiam. Faltando pouco para o fim da aula, colocamos umfunk da moda Nego do Borel e Annita, acendem-se a luzes e lês cantam e dançam. De repente a Diretora, irrompe Sala adentro,olhos faiscando, desliga o áudio. Fomos dedurados.    

João de Deus Vieira Alves