terça-feira, 12 de abril de 2016

LÍNGUA À MILANESA




LÍNGUA À MILANESA

No açougue do Inácio, dura e velha
Já, não mais exalas viço e frescura.
     Outro motivo: não gozas de formosura
   Iguaria fina para os pobres da viela...

    Começo assim, cozinhando na fervura
            Alho e sal a gosto, óleo e cebola
Um ovo batido e pouquinha pimenta
E a farinha de rosca sela a cozedura

Aposto quem experimenta teu sabor
            Nos botecos e nas cantinas servido
            Sentirá na boca o gosto e o labor

Já que ovos não comes a saída devido
           Deguste a iguaria antes sem valor
Tal que filé houvesse, por ti, comido. 



João de Deus Vieira Alves


quarta-feira, 18 de junho de 2014

“Recursos Não morfológicos na Formação de Palavras”,

1.     INTRODUÇÃO

O presente trabalho visa numa situação preliminar falar sobre os “Recursos Não morfológicos na Formação de Palavras”, e suas respectivas formações tais como onomatopeia, o redobro (ou reduplicação), o amálgama, a eponímia, a extensão semântica, bem como algumas formas mais ágeis de utilizar palavras ou sequências já existentes; o caso do truncamento e acronímia, conceituando-as e citando exemplos e sua aplicabilidade no dia-a-dia.

2.     DESENVOLVIMENTO

a.     As palavras onomatopaicas são formadas por uma sequência de sons da fala que pretende reproduzir um dado estímulo não verbal. (Vilhalva, 2008, p. 53).
“Onomatopeia é uma palavra de origem grega que significava criação de palavras”.
 A sequência fonética ao reproduzir o som forma em sua excepcionalidade uma expressão linguística, é o caso de um doce de leite que tem sua marca registrada no Rio Grande do Sul como “mu-mu”, a partir de partícula do “mu-gido” da vaca, passa ter a identificação e seu uso consagrado, e por óbvio, sinônimo de coisa fácil, sem empreender esforço.
 
   Ex: João não trabalha e nem estuda, só quer “mu-mu”.

   Veja-se que o sentido na frase, não faz alusão que João, imite a vaca, e sim queira a obtenção de seus propósitos pela lei do menor esforço, sem dispender sacrifício, e nesta esteira teremos desmembramentos morfológicos com aumentativos “mumuzão” e diminutivos como “mumuzinho”.
          Recurso muito usual na poesia a onomatopeia, serve para complementar a ação, dar suporte ao verso, aumentando seu dinamismo e vivacidade.

               Ex: Plaft! Plaft! Sopre a tábua
                     Batendo a rouba encardida!
                     Plaft! Plaft! E a mão ferida
                     Já não suporta o sabão!
                     Plaft! Plaft! Sobre a tábua
                     Batendo a roupa encardida
                     Enquanto a mágoa da vida
                     Encardia o coração.
                                                         (Dimas Costa,1997,P.33)

b.    Redobro ou reduplicação

      Processo criação de palavras que consiste na repetição de uma palavra já existente, e frequentemente mais empregado com formas verbais, indica intensidade de ação: lufa-lufa e cai-cai são exemplos que me ocorrem para ilustração.
 
        Exemplos: Na lufa-lufa diária, esquecemos até de comer.
                      
                       Rodrigo nunca será um craque, é muito cai-cai.                  
            Note-se que lufar- verbo infinitivo. Significa soprar com força (o vento), sendo que no redobro “lufa-lufa”, representa na acepção popular; grande afã, pressa, e partindo da premissa que, falando de pessoas, cair significa perder o equilíbrio, levar uma queda, o redobro em “cai-cai”, dá o sentido pejorativo de pessoa que faz corpo-mole, e não se esforça para persistir.
c.     Amálgama
                      A amálgama designa um dos processos morfológicos de formação de novas palavras (neologismos), isto é, um dos tipos de neologia. Consiste numa unidade lexical (palavra) resultante de um processo morfológico que se baseia na fusão de duas ou mais palavras. Nesta fusão permanece o início da primeira unidade lexical e o fim da segunda, outras combinações são possíveis, sendo este recurso frequentemente utilizado na construção de nomes comerciais.
                    Exemplos: a amálgama telefonia consiste na fusão das palavras telefone e radiofonia, permanecendo o início da primeira (telefone) e o fim da segunda (radiofonia).
                    * telefonia = telefone + radiofonia
                     A amálgama “brincanagem” de uso popular na fala e não dicionarizada formalmente, é uma expressão comum utilizada, composta pela junção das palavras brincadeira e sacanagem.
                  *Você tá de brincanagem com a minha cara né?
                  O aparecimento de siglas tornou-se ingrediente ativo incorporado ao cotidiano, havendo o apagamento por se tratar de abreviaturas, e seus derivados colocaram-se no sistema gramatical da língua portuguesa.
                 Exemplo: EsFECS ( Escola de Formação de Cabos e Soldados)
*Os Esfecianos da Turma de 81 confraternizaram ontem.


d.    Eponímia

    Esta palavra se formou do Grego epi-, “sobre”, mais onyma, “nome”. Um epônimo é uma palavra que se usa para designar algo a partir do nome do criador ou de uma marca.

 Exemplos:
            “estrogonofe”. Gilete é filete - a marca da lâmina de barbear, criada por King Camp Gillete. Xerox é marca/fabricande de máquinas fotocopiadoras, Eu comprei uma maquina xerox (eu comprei uma fotocopiadora)
          O Strogonoff é um prato de origem russa; na verdade, chamava-se Strogonov. Tudo começou no século XVI por meio da alimentação dos soldados russos, os quais comiam rações de carne cortadas em barris com sal grosso e aguardente para preservar o alimento.
  Por meio de um cozinheiro do Czar russo Pedro, o Grande, a comida foi melhorada e refinada. O general que protegia o cozinheiro se chamava Strogonov; daí surgiu a ideia de dar tal nome ao prato.. Masoquismo é uma tendência ou prática parafílica, pela qual uma pessoa busca prazer ao sentir dor ou imaginar que a sente. Em um sentido extenso pode-se considerar como masoquismo também a forma de prazer com a humilhação verbal. termo masoquismo deriva do escritor austríaco Leopold von Sacher-Masoch.

e.     Truncamento

É  um processo de redução de uma palavra, que elimina uma sequência, geralmente final da palavra  (Vilhalva,2008,)., Sobre o  truncamento, especificamente, (Gonçalves,1999,) estabelece os seguintes critérios, buscando mostrar sua sistematicidade:
   O truncamento é um recurso morfológico de natureza expressiva. Assim, não há distanciamento de significado entre a forma reduzida e a palavra-matriz; o que há é a utilização da forma truncada para a expressão de um tipo específico de enunciado: a expressão do pejorativo. Ex.: analfa.
   O truncamento reproduz parte da base e acrescenta uma vogal final  –a, nem sempre presente na palavra-matriz. A vogal –a funciona como uma espécie de afixo de truncamento. Ex.: estrangeiro > estranja.
    A formação do truncamento não leva em conta o acento da base. Ex.:               baterista batera; flagrante > flagra
   O truncamento é sempre paroxítono.

f.      Acronímia

A acronímia é também um processo de redução, mas o seu domínio de intervenção é uma sequência de palavras. Em termos práticos, a acronímia consiste na criação de uma palavra a partir do(s) grafema(s)que se situa(m) no início das palavras que integram um título ou uma frase. A forma resultante é foneticamente realizada como um contínuo, e não como uma sequência de sons independentemente articulados. (Vilhalva ,2008)Acronímia – «Conjunto de processos morfológicos que levam à formação de acrónimos, cuja particularidade é a de serem pronunciados como uma palavra corrente; apresentam-se sob a forma de siglas, amálgamas ou de novas unidades lexicais. A acronímia é um fenómeno neológico muito produtivo em língua, com grande dinâmica, por exemplo, na atribuição de nomes próprios para designar novos objetos, instituições ou organismos. Exemplo:

SENASP – Secretaria Nacional Segurança Pública
ASCAF – Associação dos Criadores de Frango

g.    Sigla

          Termo complexo abreviado ou nome formado a partir das letras iniciais dos seus elementos. Uma sigla forma uma sequência cuja pronúncia é alfabética, silábica ou ambas. Exemplos: CEEE, IBGE,...

          h. Extensão Semântica

              Consiste na atribuição de um novo significado a uma palavra já existente, é um dos processos morfológicos de formação de novas palavras (neologismos), isto é, um dos tipos de neologia, na troca de vocabulário entre a língua geral e as línguas de especialidade, ou seja, um conteúdo semântico já existente passa a adquirir novas polissemias através do seu uso.

               Exemplo: Papel, substância constituída por elementos fibrosos de origem vegetal, os quais formam uma pasta que se faz secar sob a forma de folhas delgadas, para diversos fins: escrever, imprimir, embrulhar, etc.
             Ex: Este papel autoriza a entrega da encomenda. (recibo)
             Ela tem um bom papel na novela. (parte que o ator representa).
              Não aceitam ouro ,só papel. (Dinheiro)


i.       Por transposição semântica:
Nesse caso, não temos um novo significante, e sim, um novo ou significado atribuído ao mesmo significante, sem perda do significado original.  A lista, nesse caso, poderia ser longuíssima, com formações imprevisíveis: repaginados (Veja=com nova aparência), xiitas (idem=pessoa que é fanática por uma idéia), laranja (Veja=falso proprietário), mico (idem=mau negócio), grampear (idem=prender), gato (idem=ligação clandestina de eletricidade), turbinar, siliconar (idem=aumentar uma parte do corpo por cirurgias plásticas), provedor (idem=ligação com a Internet), mala (O Dia=pessoa inconveniente), montadoras (idem=fábrica de automóveis) etc.(Alves,1992).
Analisando os exemplos supramencionados, passamos discutir até     que ponto esses exemplos podem ser considerados ”palavras”, visto que as palavras do ponto de vista morfológico são estruturas ou unidades menores, sendo nomeados de constituintes morfológicos. Para tanto para termos palavra  é  necessário que um radical, um especificador morfológico, constituinte temático, especificadores morfossintáticos, que irão realizar a flexão morfológica.
Na onomatopeia as palavras formadas por uma sequência de sons, tendo um estímulo sonoro não verbal, os exemplos citados “ mu-mu” , corruptela do mugido da vaca e “plaft-plaftt” o som da roupa na tábua do tanque, nos passam a impressão sonora, e seus constituintes não preenchem os requisitos morfológicos para a formação de palavras. No redobro e duplicação cria uma terceira palavra, o segundo elemento e o clone do primeiro, empregado em formas verbais, portanto, palavra morfológica.
A amálgama, eponímia, o truncamento, anomínia e a extensão semântica podemos considerar palavras com suas particularidades e idiossincrasias, visto a manutenção dos processos morfológicos na origem da palavra e duas derivações.
Arriscamos afirmar que os processos levantados são recorrentes na Língua Portuguesa, tendo em alguns casos o impeditivo do léxico, se é dicionarizada ou não, e a questão da dinamicidade deveria ser acompanhada com atualização “dicionaral”?     

3. CONCLUSÃO

      Este trabalho não esgota o assunto e nem tem a pretensão e alcance para tanto, visa com base nos exemplos coletados mostrar a diversidade lexical da língua, enquanto organismo vivo, sofrendo influências na formação de palavras com recursos não morfológicos e sua ortodoxia e os acréscimos de expressões com inclinação mais fonológica que morfológica contribuição importante para a riqueza gramatical, na língua falada e escrita.
               Poeminha Ocasional  
    É preciso xerocar a sentença desta decisão Draconiana
     Pois até para um masoca , existem fardos mui pesados
     Plaft soa o tapa na cara
     No vagabundo que só quer mu-mu.
     Pois sendo, estranja e analfa  foi pego no flagra
     Na lufa-lufa diária brigando com a eletro telefonia
     Nesta brincanagem  que ora funciona, ora falha
     Fazer gato da CEEE e crime afim no SENASP
(João de Deus, Julho 2012)

 Referências Bibliográficas:
ALVES, Ieda. Neologismo: criação lexical. São Paulo: Ática, 1990. ípios)  
BASÍLIO, Margarida. Teoria lexical. 3. ed. São Paulo: Ática, 1991. (Série Princípios) 
COLLISCHON, Gisela. Acento secundário em português. Letras de hoje. Porto Alegre, v. 29, no. 4, p. 43-53, dez. 1994.
CRYSTAL, David. Dictionary of Linguistics and Phonetics. Blackwell, 2001.
KEHDI, Valdir.  Formação das palavras em português. São Paulo: Ática, 1992. (Série Princípios) 
LORD & ZUNG. How does the lexicon work? Word. v. 43, n.3, p. 349-373. 1992.
LUFT, Celso Pedro. Novo manual de português, gramática, ortografia oficial, literatura, redação, textos e testes. São Paulo: Globo, 1996. 
MONTEIRO, José. Morfologia portuguesa. Fortaleza: EUFC, 1986. 
ABREU, Rosa – Isso é uma palavra, Ver.ABRALIN, p.113-130,dez.2006
VILLALVA,A .Morfologia de Português, Lisboa:Univ. Aberta,2008,Cap.2





sexta-feira, 22 de novembro de 2013

DOMADOR











                                         
Sinto o cheiro das flores de laranjeiras invadirem minhas ventas e a brisa suave da primavera já mostra sua cara, dizem pelaí que este ano o desfile vai ser o maior de todos os tempos , deu na rádio que vão apostar quem coloca mais cavalo na rua, upa pá pá, e aquele baio frente aberta a pouco arrocinado vai ser a flor de estampa do piquete, mas o rosilho do guri do patrão, ficou manso de boca e trote macio, me desculpe o patrãozinho, mas ficou lindo inté pra o montar das moças, um fachadão.

Me alembro quando vim pra estancia, diz que meu pai babou um calavera a facão numa tasca, por causa de trago e uma  china candongueira e só teve tempo de apanha as pobrezas, mete numa carroça, vim de contabrando tapado com um couro de boi , que a poliça tava na cola dele, e se aquerenciou aqui ,ficando de posteiro neste fundão, por gratidão do dono das terras, pra ocasião em que cantaram os ferros e num vupt ele alçou a perna com o rapazola se tremendo todo e mijando perna abaixo pelo cagaço do entrevero, achava  que por ser doutor era fácil cobiçar a percanta novinha na zona, preferida do zarolho maleva que já trazia mais de dez mortes nas costas, ficou sabendo tempo depois que aquele moço era filho de um estanceiro rico e tinha campos que numa galopeada das baguala levava bem uns dois dias pra cobrir tudo.

Me criei guacho e xucro, sem sabe lê nem escreve, minha mãe ficou  na cidade, dizem que virou mulher da vida e morreu de doença do sangue e fraca dos “polmão”, meu pai tempos despois veio a morre emaranhado numa cerca de arame farpado quando voltava da venda com o sortido e ficou lá a noite toda e só foi encontrado no outro dia na soalheira ,cozido , de tanto vinho que bebeu.

Fui mandalete nas lavouras de arroz, sempre com um casquinho de chifre, pras precisão de se um acaso fosse picado de cobra, que cruzeira naquelas banda era mato,curei bicheira, castrei touro, comi os bagos na salmoura, muita novilha atracada não deu pra salvar o terneiro e o nonato fervido com pirão na pimenta era a bóia para guentar o tirão, fui coimeiro  nas cancha de osso, alambrador, esquilador, changueador, domador, as vezes, a troco de fumo e canha, e sendo depenado nos cabarés com pinguanchas ligeiras de beiço pintado e olhar rebenqueadores, mas meu oficio que sempre me gustó foi o de lonqueador, lida de horas a fio, courear, preparar o couro, limpar raspando os pelos, fazendo tentos, tranças, costuras e retovos.  Arreios de meu feitio correram fama e ganhei uns trocados, e lhe garanto se não fosse esta dor nas costas tava até hoje lonqueando e fazendo garras.

A pequena ponta de gado foi mermando, as galinhas ,as ovelhas, só restou este cusco ovelheiro me fazendo companhia, numa magreza de dar dó, uma angústia, ralho com ele, espanto, mando se aquerenciar noutro rancho, mas nada, parece que nem é com ele.

Não respeitam os mais velhos, nem adeus eles dão, passam pela gente e nem olham, se alojaram na casa grande, puxaram um fio dos postes que plantaram na estrada, é uma barulheira, não consigo entender, ficam amontoados na frente daquela caixa que  mostra gente lá dentro delasem prosear e nem mesmo se olharem, não tem roda de mate nem tampouco de causos,  e este piá sotreta tá sempre aqui no galpão espalhando meus tareco, até meu pelego presente do seu Dionísio na ultima comparsa que fizemos, a martelo, tá com o carnal todo rendado e cheio de pulgas deste guaipeca de fresco lá da cidade, ah se não fosse esta dor nas costas, dava uma sumanta de relho no pai dele, passava urtiga braba na bunda do guri e botava campo fora com a cachorrada atrás. 

Mas hoje, tem desfile .Madrugaram na estância, carnearam ovelhas e novilho abriram um valetão, espetos de lado a lado, canha a la farta, música ,arreios e aperos luzindo, tudo de pilcha nova e umas camisas da mesma cor dizendo sei lá o que. Ah. Mas hoje tô um pouco melhor fiz uma infusão com ervas, álcool e passei nas costas , remendei as garras , tomei banho na cacimba, ajeitei a carapinha, que já mostra uns flocos de algodão, bombacha de grivo com meu nome bordado, jaleco de couro de capincho, lenço vermelho, camisa xadrez, as botas com mossa das esporas garroneiras, a guaica lonqueada, trançada e enfeitada com os cartuchos do chimitão das confiança, e meu chapéu pança de burro, que muitas vezes foi minha casa nas noites de ronda, sol inclemente e frios  de entanguir , e meu lunanco já tá pronto prum quero , não me misturei na festa, vou esperar  aqui na sombra e sigo com eles rumo a cidade, já sinto o tropel, já tão chegando , levanta cusco , vais de escoteiro a meu lado, pachola , ouvindo as palmas do povo, vamo ,tchê , a dor nas costas tá aumentando e este cavalo não consigo achar a volta, a dor tá aumentando, vou tomar meia de canha com butiá e aguento o repecho, já tão na curva do açude e na frente vem o patrãozinho e o piá entonado.Ah. Montei e tô junto do piquete, mas eles não me esperaram, continuaram, ah se não fosse esta dor ,dava uma galopeada e raiava com estes borra-botas, onde já se viu deixar um parceiro prá trás, e tu jaguara sarnoso, nem pra  acoar tem força ou morder as patas destes matungos.       

Na estancia ,encilham, montam ,formam o piquete , o porta bandeira na frente com brasão da cabana, referência na criação de cavalo crioulo, rumam para o desfile, contornam o açude , entram no corredor e sob a centenária figueira, um destinto lenço esfarrapado, numa cruz tosca carcomida, desperta a atenção do guri que indaga o pai, de quem é aquela cova.
__ Não te importa ,dizem que que aí enterraram um negro véio, que se meteu a domar um cavalo maleva, levou uma rodada e se planchou com as costas na cerca de pedra da mangueira, ficou entrevado e morreu, e como não tinha ninguém por ele , colocaram ele aí, pra servir de adubo e bóia pras formigas, e nem com reza braba conseguem tirar este cusco chaguento só pele e osso de cima dessa sepultura.

NA. Os erros ortográficos, devem-se a fala do narrador da estória.







segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Raízes Africanas, Solo Gaúcho



Raízes Africanas, Solo Gaúcho
João de Deus Vieira Alves


                Quando o trem resfolegou na estação, deixando atrás de si , um rastro de fumaça, lágrimas e infância perdida. Quando a retina plasmou a moldura dos campos e o contorno dos cerros.  Venâncio acomodou-se no banco de madeira com a trouxa de roupas contra o peito, e lançou a chispa de seu olhar em direção ao futuro.
                Anos mais tarde, com os filhos espalhados, esmolando nos sinais, a mulher que morreu cedo, na fila interminável da previdência social. Os lábios grossos ressecados, mal seguram as baganas e o tremor e inchaço são sintomas do trago e fumo.
                Não mais o verdor dos campos, cancha reta, jogo de osso, truco, galpão e siesta nos pelegos. Albergue e sopa do pobres. Portas na cara e desprezo. O brilho de outrora, é opaco, a voz roufenha repete a ladainha, e perturba quem espera ônibus no fim-da-linha.
“ Foto, olha a foto, fotooo”
                O vento da primavera mostra seus primeiros sinais e as juntas doridas alertam que o mês será chuvoso, ouve que num parque da cidade há grade acampamento, festas e poderá catar latinhas para vender e quem sabe, as sobras da festança lhe sejam alcançadas, para aplacar a fome que é sua parceira “hace tiempos”.
                Negro forte, num upa estava no lombo de algum malino, por diversão e farra, garantindo o municio e  os vícios , e um chego na zona de meretrício , onde as chinas candongueiras e de pernas grossas amainam o minuano e tornam as noites mais aconchegantes.
                Os caminhos são os mesmos, as avenidas largas da indiferença, de cada ser ensimesmado, nos labores da faina diária.
                Sob a marquise no meio da cidade que pulsa ao redor, a saudade dói e corrói como ácido, o vento da madrugada uiva em seus ouvidos, batendo de encontro ao rosto aguça os sentidos, máscaras de granito e ferro, luzes frias e insensíveis balouçam, passos ressoam na calçada, risos vagos e ilusórios, seres indefinidos e tristes. A marginalia circula livremente, o racismo salta aos olhos dos homens da justiça e ser negro é crime! A cor da pele o estigmatiza, a chacota e o ridículo doem mais que mil chibatadas ou ferro ardente em brasa. Os bêbados vomitam verdades no rosto da sociedade perplexa, órfãos do destino imploram pão  , moedas  piedosas caem em suas mãos.
                Encolhe-se no fétido cobertor carcomido e cheio de pulgas, mero espectro, onde a noite em pesadelos, cavalga fletes de pelo dourado, com seu aperos de prata brilhantes, carona, lombilho, pelegos e badana, a moda da fronteira, e a voz do bisavô , mansa e pausada, atravessa o oceano e traz a Mama África para acalentar seu sono.
                Foram cativos em diversas aldeias, seguindo em fila indiana, presos ao libambo , atados pelo pescoço a outros infelizes, os doentes e insubmissos abandonados ao longo dos caminhos, gargantas abertas para medo aos demais, carregavam sacos com pedras e areia, para aumentar a resistência e o suplicio, como premio por viverem ganhavam ração e fumo e aguardente, eram batizados e obrigados a obedecer e temer um Deus que não era o  seu. Mesma cor, falares diferentes, igual destinos, mesma sina, jamais haviam visto o mar, um navio, um homem branco, temiam ser devorados por seres antropófagos na outra margem. Nus, cabelos raspados, quase sem água e comida. Epidemias avassaladoras, jogados ao mar os corpos, de volta aos seios de Yemanjá, quando batia forte o banzo, levando-os a loucura e suicídio.
                Cata lixo em meio ao Parque, revirando restos, olha aparvalhado moças e rapazes, pilchados, cheirosos, como se obedecessem a um manual, contrastando com os tradicionais autênticos , sem rédea ou bocal, que chegaram neste lugar e como desbravadores de outrora, conquistaram o espaço, onde foram segregados com seus animais, para hoje após os reconhecimento do poder público e adoção pela grande mídia, virar ponto de referencia.
                A noite fria enregela os ossos, carros temáticos desfilam na avenida fronteira ao rio que banha a cidade, aplausos, fotos e turistas.
                Os principais jornais noticiam no dia seguinte, estampam manchetes de capa “ DESFILE TEMATICO, NOSSA RIQUEZAS “, encerra a Semana Farroupilha.
                Na parte sobre a cultura africana trazendo o Rei Congo e a Rainha Mina,  atabaques, Lanceiros Negros, junto ao meio-fio próximo a arquibancada, uma figura imponente com um saco preto na mão, tirador de estopa e vincha na carapinha branca, cata latas, olhos castigados pela luz, molambo eivado de cicatrizes pelo corpo e na alma, moldurando um gaúcho despilchado  e pés no chão, esquecido e desprezado, correrá o mundo em contraponto com a beleza do desfile.
                No derradeiro estertor, na campa onde repousa, aponta na banca de revista, e entredentes, sentindo a agulhada no peito, num supremos esforço balbucia, na golfada derradeira de sangue:
                                              “ Foto, o..lha, a...fo.tooooo”



quinta-feira, 11 de julho de 2013

A menina das Rosas

Rosa,  era seu nome
rosas, vendia
Rosa, espinhava compaixão
Paixão, por rosas havia
e Rosa, sorria, então!


Rosa, nas mãos trazia
calos, espinhos, lágrimas e rosas


Até, Rosa que vendia rosas
nem rosa era, era botão


Cara suja, roupa esfarrapada
Bonita, sofrida

Rosa menina! Rosa criança.


JOAO DE DEUS VIEIRA ALVES










sábado, 22 de junho de 2013

Análise do Poema em linha reta, de Fernando Pessoa, na voz de Osmar Prado














Trabalho de Fonologia

Análise do Poema em linha reta, de Fernando Pessoa, na voz de Osmar Prado

João de Deus Vieira Alves
Lucas Reis Gonçalves




Por afinidade, gosto ou (a ilusão de menos) trabalho, selecionamos a obra poética de Fernando Pessoa para realizar a análise fonológica proposta pelo cronograma da disciplina. Não apenas uma “obra poética” do bastante venerado poeta português, mas a realização oral dessa obra. Dentre as tantas interpretações que circulam pelo meio virtual, uma delas nos chamou a atenção: Osmar Prado, na novela O Clone, fazia um personagem alcoólatra que lia, e não só lia, falava Fernando Pessoa em diferentes situações da trama novelística. E, numa dessas, pego no flagra, com o uísque na mão, ele desatou a declamar o poema mais que famoso Poema em linha reta. E foi por aí que iniciamos o namoro com o material. Pelo Clone, vê só.
A gravação, como quase tudo hoje, está disponível no YouTube – site de compartilhamento de vídeos que dispensa maiores apresentações. Com base nela, numa duração de aproximadamente dois minutos e meio, recolhemos informações suficientes (e até demais!) para execução da análise em questão.
Ressaltando aqui que a gravação utilizada de fonte para a coleta de dados provém de um trecho de um episódio d’O Clone, é importante também lembrar que o texto falado pelo ator não coincide exatamente com a obra original. Adaptando algumas coisas para a situação em ação e cortando outras, o personagem de Osmar Prado desenvolve a sua leitura sobre o poema de Pessoa. Assim sendo, o discurso que importa a nós, nesse momento, é o do personagem. E é ele que é transcrito aqui, com suas versões em transcrição fonética e transcrição fonológica:

Eu nunca conheci quem tivesse levado porrada.
[Èew Ènu0k« koøeÈsi ke0J0tSiÈvEsI leÈvadU poÈXad«]
/Èeu ÈnuNka koNeÈsi keNtiÈvEse leÈvado poÈrada/

Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
[ÈtodUz ÈuZ ÈmewS koøeÈsidUs te0J0ÈsidU ka0peÈo0J0s i00ÈtudU]
/Ètodos Èos Èmeus koNeÈsidos teNÈsido kaNpeÈoeNs eNÈtudo/

E eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
[iÈew kiÈta0t«Z 8 ÈvezIs ÈteøU ÈsidU XiÈdZikUlU abi 8ÈsuXdU]
/eÈeu keÈtaNtas Èvezes Èteøo Èsido riÈdikulo abiÈsurdo/

Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
[kiÈteøU soÈfRidU i0S0oÈvalJUz ikaÈladU]
/keÈteøo soÈfRido eNSoÈva´os ekaÈlado/

Quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
[ÈkWa0dU Èna0w0 ÈteøU kaÈladU ÈteøU ÈsidU maXiÈdZicUlU aÈi0d«]
/kuÈaNdo ÈnaN+o  Èteøo kaÈlado Èteøo Èsido maRiÈdikulo aÈiNda/

Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
[Èew kiÈteøU ÈfejtU veXÈgoø«S finaÈ0seR«S peÇdZidwi00pReSÈtadU  Èse0J0 paÈgaX]
/Èeu keÈteøo Èfeito verÈgoøas finaNÈseras peÇdidoeNpresÈtado ÈseN paÈgar/

Que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
[kiÇkWa0daȍR« duÈsokU suRÈZiw miÈteøU agaÈSadU]
/kekuÇandaȍRa doÈsoko suRÈZiu meÈteøo agaÈSado]

Pra fora da possibilidade do soco;
[pRaÈfR« daposibiliÈdad duÈsokU]
/pRaÈfRa daposibiliÈdad duÈsoko/

Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
[Èew veRiÈfikU Èki Èna0w0 ÈteøU ÈpaX ÇniStuÈtudU ÈneStSI Èmu0dU]
/Èeu veRiÈfiko Èke ÈnaN+o Èteøo Èpar ÇnistuÈtudo Èneste ÈmuNdo/

Todo mundo que eu conheço e que conversa comigo
[ÇtoduÈmu0dU ÈkJew koÈøesU ikiko0ÈvEXs« kuÈmigU]
/ÇtodoÈmuNdo Èkeu koÈøeso ekekoNÈvErsa koÈmigo/

Nunca teve um ato ridículo,
[Ènu0k« teviu0ÈatU XiÈdZikUlU]
/ÈnuNka teviÈuNato riÈdikulo/

Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
[Ènu0k« Èfoj siÈna0w0 ÈpRinsipI ÇtoduÈzelIS ÈpRinsipIs naÈvid«]
/ÈnuNka Èfoi seÈnaN+o ÈpRinsipe ÇtoduÈzeles ÈpRinsipes naÈvida/

Ah,ah, quem me dera ouvir de alguém a voz humana
[Èa Èa Èke0J0 miÇdERoÈvi dZjAÈge0J0 Èa ÇvozuÈma0n«]
/Èa Èa ÈkeN meÇdERoÈvi dealÈgueN Èa ÇvozuÈmana/

Que me confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
[Çkimiko0feÈsasI Èna0w0 peÈkadU Èmajs ÇumajnÈfa0mi«]
/ÇkemekoNfeÈsase ÈnaN+o peÈkado Èmais ÇumainÈfamia/

Que me contasse, não um ato de violência, mas uma covardia!
[ÇkimikoÈ0tasI Èna0w0 u0ÈatU ÈdZi vjoÈle0sj« ÇmajÈzum« kovaXÈdZi«]
/ÇkemekoNÈtase ÈnaN+o uNÈato Ède vioÈleNsia ÇmaiÈzuma kovarÈdia/

Ó príncipes, meus irmãos,
[ȍ ÈpRinsipIs mewziXÈma0w0s]
/ȍ ÈpRinsipes meuzirÈmaN+os/

Onde é que há gente no mundo?
[onÈdEkj« ÈZe0tSI nuÈmundU]
/onÈdEkea ÈZeNte noÈmundo/

Poderão as mulheres não os terem amado,
[podeÈRa0w0 ÈaZ 8 muÈlJERIS 8 Èna0w0S ÈterI0 aÈmadU]
/podeÈRaN+o Èas muÈ´ERes ÈnaN+os ÈtereN aÈmado/

Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca! Nunca!
[Èpde0J0 teXÈsidU tRaÈidUz Èmajs XiÈdZikUlUZ Ènu0k« Ènu0k«]
/ÈpdeN tersÈido tRaÈidos Èmais riÈdikulos ÈnuNka ÈnuNka/

E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
[iÈew kiÈteøU ÈsidU XiÈdZikUlU Èse0J0 teXÈsidU tRaÈidU]
/eÈeu keÈteøo Èsido riÈdikulo ÈseN tersÈido tRaÈido/

Como é que eu posso falar com os meus superiores sem titubear?
[koÈmwE kiÈew ÈpsU faÈla ku0ZÈmews supeÈRjoRIs Èse0J0 tSitubeÈaX]
/komoÈE keÈeu Èpso faÈla koNsÈmeus superiÈores ÈseN titubeÈar/

Sem meter goela abaixo pelo menos um bom gole de uísque ou de cachaça?
[Èse0J0 meÈte guÇelaÈbaSU ÈpelU ÇmenUÈzu0 Èbo0w0 ÈglI dZiÈwiSkI Èow ÈdZI kaÈSas«]
/ÈseN meÈte guÇelaÈbaSo Èpelo ÇmenuÈzuN ÈboN Ègle diuÈiske Èou Ède kaÈSasa/

Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
[Èew kiÈteøU ÈsidU Èviw literawÈme0tSI Èviw]
/Èeu keÈteøo Èsido ÈviL literaÈmeNte ÈviL/

Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
[Èviw nusenÈtSidU meSÈkiøU Èi iÈ0fa0mI Èda viÈlez«]
/ÈviL nosenÈtido mesÈkiøo Èe iNÈfame Èda viÈleza/

Análise dos processos no Poema em linha reta

                Antes de iniciar a análise dos processos em si, seria interessante destacarmos os desconfortos que tivemos em relação às transcrições fonética e fonológica.  Primeiro, e com grande intensidade, a alternância evidente entre as fricativas alveolares ([s] e [z]) e as fricativas alveolo-palatais ([S] e [Z]) na fala de Prado, como em

[Ènu0k« Èfoj siÈna0w0 ÈpRinsipI ÇtoduÈzelIS ÈpRinsipIs naÈvid«]
e em
[iÈew kiÈta0t«Z 8 ÈvezIs ÈteøU ÈsidU XiÈdZikUlU abi 8ÈsuXdU]
               
Como se vê, há uma clara variação da pronúncia do ator. Parece haver, dentro do discurso todo, traços do sotaque carioca – traços esses em evidência na problematização proposta – que, naturais, permeiam a declamação. Em momentos de maior ênfase, ele dá prioridade às fricativas alveolares.  Já quando corre rapidamente o verso, cai em algumas fricativas alvéolo-palatais -  ainda que, às vezes, fracamente.
O segundo desconforto, porém muito menor, é provocado também pelo sotaque carioca. No uso das róticas em posição de coda, como em [abi 8ÈsuXdU] exigiu um particular cuidado durante a audição. Fora isso, o trabalho foi o mesmo. Cansativo e bastante relativizado.
Agora, quanto aos processos, podemos começar pelos níveis hierarquizados através das aulas da disciplina. Ou seja, a partir da ordem de apresentação dos processos fonológicos produzida em aula, iniciaremos a análise de cada processo e sua ocorrência no material produzido pela declamação do ator da novela.

1.        Apagamento
Temos, em alguns determinados momentos, a supressão de um elemento (consoante e vogal) no meio de palavra, como em

[ÈkWa0dU Èna0w0 ÈteøU kaÈladU ÈteøU ÈsidU maXiÈdZicUlU aÈi0d«]

Nesse caso, temos supressão de uma vogal [i] (ou semi-vogal [j]) e uma consoante [s] ou [Z]. Conforme o estudo da Fonologia, esse processo de apagamento é comumente chamado de síncope.

Outro tipo de apagamento corrente na análise fonológica é a apócope, que define a supressão de elementos no final da palavra. Esse tipo de apagamento ocorre também na fala do poema de Pessoa em situações como

[pRaÈfR« daposibiliÈdad duÈsokU]
ou
[Èa Èa Èke0J0 miÇdERoÈvi dZjAÈge0J0 Èa ÇvozuÈma0n«]

Nesse último trecho de fala, temos um apagamento da líquida final /r/, o que não deixa de caracterizar o evento como a supressão do elemento no final da palavra.

Há também, funcionando como apagamento, a monotongação, que suprime uma vogal do encontro vocálico como ditongo. Vê-se, por exemplo, em

[Èew kiÈteøU ÈfejtU veXÈgoø«S finaÈ0seR«S peÇdZidwi00pReSÈtadU  Èse0J0 paÈgaX]

ou em
[miÇdERoÈvi]

Em ambos os casos, temos o apagamento de elementos no interior das palavras.

2.      Assimilação
Assim como o processo de apagamento, as assimilações tomam lugar de vários versos do poema.  Temos, por exemplo, a assimilação da nasalidade pela vogal que a antecede em passagens do tipo
/ÈviL nosenÈtido mesÈkiøo Èe iNÈfame Èda viÈleza/
ou
/Èa Èa ÈkeN meÇdERoÈvi dealÈgueN Èa ÇvozuÈmana/

Em outros momentos, encontramos o vozeamento de fricativas pelo fato de estarem na posição anterior a um elemento sonorizado, como em
[Èpde0J0 teXÈsidU tRaÈidUz Èmajs XiÈdZikUlUZ Ènu0k« Ènu0k«]

3.      Epêntese
Dentro do discurso de Osmar Prado, encontra-se um caso de inserção de uma vogal (breve) para a pronúncia da palavra ‘absurdo’ em
[iÈew kiÈta0t«Z 8 ÈvezIs ÈteøU ÈsidU XiÈdZikUlU abi 8ÈsuXdU]

4.      Crase
Temos uma situação especial, que pode talvez vir a ser definida como apagamento, mas preferimos tratar como crase. O encontro de duas vogais, formando uma (no caso a ser exposto, uma glide), seria capaz de definir esse processo que pode ser visto aqui:
[podeÈRa0w0 ÈaZ 8 muÈlJERIS 8 Èna0w0S ÈterI0 aÈmadU]
Aqui as vogais de mesmo som das duas palavras acabam se combinando e sendo pronunciadas conjuntamente. Torna-se possível assim, pelo ritmo e pela fluidez do texto, reunir os fonemas em apenas um fone só.

Conclusões e observações
                De largada, assumimos uma conclusão óbvia e bastante presente no decorrer do trabalho: o trabalho. A labuta toda pra produzir – principalmente – as transcrições e ouvir e reouvir o áudio da declamação do poema nos fez virar a cabeça umas quantas vezes, umas para trocar de ouvido, e outras pra arejar ela própria. A voz do Osmar Prado, ator decorado há muito, já se tornou irritante. Pobre homem.
                Mas é aí que está a graça. A partir desse esforço todo, na tentativa de escutar uma fricativa mais posterior ou mais anterior; de ouvir um /r/ carioca e não um /R/ gaúcho; de entender onde há apagamento, onde há epêntese; a partir de tudo isso, visualizamos algumas fronteiras e limites que desenham as ferramentas e os terrenos da Fonologia e da Fonética.
                Já no âmbito da especificidade do discurso poético, o esquema é outro. Nota-se facilmente a peculiaridade desse tipo de fala. Contrário a uma conversa espontânea ou uma gravação de certo corpus delimitado, a poesia declamada adquire aqui um caráter único na sua realização. O ritmo, a sucessão de fonemas, a ênfase em determinados pontos da pronúncia são características que moldam uma espécie de fala pré-estabelecida, fala essa com um fluxo de linguagem ágil e correto. Correto no sentido de completo – unitário. Esse fator de unidade dá a poesia uma sutil ideia de texto decorado – um texto exato. Não é à toa que esse fluxo acaba aglutinando todos os versos, um sobre o outro, verso sobre verso, até confundir a cabeça de quem os analisa.

                Tudo isso para explicitar a dificuldade pela qual passamos e por qual, provavelmente, todo o fonólogo já passou algum dia.