O
presente trabalho visa numa situação preliminar falar sobre os “Recursos Não
morfológicos na Formação de Palavras”, e suas respectivas formações tais como
onomatopeia, o redobro (ou reduplicação), o amálgama, a eponímia, a extensão semântica,
bem como algumas formas mais ágeis de utilizar palavras ou sequências já
existentes; o caso do truncamento e acronímia, conceituando-as e citando
exemplos e sua aplicabilidade no dia-a-dia.
2.DESENVOLVIMENTO
a.As palavras onomatopaicas são formadas
por uma sequência de sons da fala que pretende reproduzir um dado estímulo não
verbal. (Vilhalva, 2008, p. 53).
“Onomatopeia é uma palavra de origem grega
que significava criação de palavras”.
A sequência fonética ao reproduzir o som forma
em sua excepcionalidade uma expressão linguística, é o caso de um doce de leite
que tem sua marca registrada no Rio Grande do Sul como “mu-mu”, a partir de
partícula do “mu-gido” da vaca, passa ter a identificação e seu uso consagrado,
e por óbvio, sinônimo de coisa fácil, sem empreender esforço.
Ex: João não trabalha e nem estuda, só quer
“mu-mu”.
Veja-se que o sentido na frase, não faz
alusão que João, imite a vaca, e sim queira a obtenção de seus propósitos pela
lei do menor esforço, sem dispender sacrifício, e nesta esteira teremos
desmembramentos morfológicos com aumentativos “mumuzão” e diminutivos
como “mumuzinho”.
Recurso muito usual na poesia a
onomatopeia, serve para complementar a ação, dar suporte ao verso, aumentando
seu dinamismo e vivacidade.
Ex: Plaft! Plaft! Sopre a tábua
Batendo a rouba encardida!
Plaft! Plaft! E a mão
ferida
Já não suporta o sabão!
Plaft! Plaft! Sobre a tábua
Batendo a roupa encardida
Enquanto a mágoa da vida
Encardia o coração.
(Dimas
Costa,1997,P.33)
b.Redobro
ou reduplicação
Processo criação de palavras que consiste
na repetição de uma palavra já existente, e frequentemente mais empregado com
formas verbais, indica intensidade de ação: lufa-lufa e cai-cai são exemplos que me ocorrem para ilustração.
Exemplos:
Na lufa-lufa diária, esquecemos até de comer.
Rodrigo nunca será um
craque, é muito cai-cai.
Note-se que lufar- verbo infinitivo.
Significa soprar com força (o vento), sendo que no redobro “lufa-lufa”, representa na acepção popular; grande afã, pressa, e
partindo da premissa que, falando de pessoas, cair significa perder o equilíbrio, levar uma queda, o redobro em
“cai-cai”, dá o sentido pejorativo de pessoa que faz corpo-mole, e não se
esforça para persistir.
c.Amálgama
A amálgama designa um dos
processos morfológicos de formação de novas palavras (neologismos), isto é, um
dos tipos de neologia. Consiste numa unidade lexical (palavra) resultante de um
processo morfológico que se baseia na fusão de duas ou mais palavras. Nesta
fusão permanece o início da primeira unidade lexical e o fim da segunda, outras
combinações são possíveis, sendo este recurso frequentemente utilizado na
construção de nomes comerciais.
Exemplos: a amálgama telefonia consiste na fusão das palavras telefone e radiofonia,
permanecendo o início da primeira (telefone)
e o fim da segunda (radiofonia).
* telefonia =
telefone + radiofonia
A amálgama “brincanagem” de uso popular na fala e
não dicionarizada formalmente, é uma expressão comum utilizada, composta pela
junção das palavras brincadeira e
sacanagem.
*Você tá de brincanagem com a minha cara né?
O aparecimento de siglas tornou-se
ingrediente ativo incorporado ao cotidiano, havendo o apagamento por se tratar
de abreviaturas, e seus derivados colocaram-se no sistema gramatical da língua
portuguesa.
Exemplo: EsFECS ( Escola de Formação de
Cabos e Soldados)
*Os Esfecianos da Turma de 81
confraternizaram ontem.
d.Eponímia
Esta palavra se formou do Grego epi-,
“sobre”, mais onyma, “nome”. Um epônimo é uma palavra que se usa para designar
algo a partir do nome do criador ou de uma marca.
Exemplos:
“estrogonofe”.
Gilete é filete - a marca da lâmina de barbear, criada por King Camp Gillete. Xerox é marca/fabricande de
máquinas fotocopiadoras, Eu comprei uma maquina xerox (eu comprei uma fotocopiadora)
O Strogonoff é um prato de origem russa; na verdade, chamava-se
Strogonov. Tudo começou no século XVI por meio da alimentação dos soldados
russos, os quais comiam rações de carne cortadas em barris com sal grosso e
aguardente para preservar o alimento.
Por
meio de um cozinheiro do Czar russo Pedro, o Grande, a comida foi melhorada e
refinada. O general que protegia o cozinheiro se chamava Strogonov; daí surgiu a ideia de dar tal nome ao prato..Masoquismo é
uma tendência ou prática parafílica, pela qual uma pessoa busca prazer ao
sentir dor ou imaginar que a sente. Em um sentido extenso pode-se considerar
como masoquismo também a forma de prazer com a humilhação verbal. termo
masoquismo deriva do escritor austríaco Leopold von Sacher-Masoch.
e.Truncamento
É um
processo de redução de uma palavra, que elimina uma sequência, geralmente final
da palavra (Vilhalva,2008,).,Sobre
o truncamento, especificamente, (Gonçalves,1999,)
estabelece os seguintes critérios, buscando mostrar sua sistematicidade:
O truncamento é um recurso morfológico de
natureza expressiva. Assim, não há distanciamento de significado entre a forma
reduzida e a palavra-matriz; o que há é a utilização da forma truncada para a
expressão de um tipo específico de enunciado: a expressão do pejorativo. Ex.: analfa.
O truncamento
reproduz parte da base e acrescenta uma vogal final –a, nem sempre presente na palavra-matriz. A
vogal –a funciona como uma espécie de afixo de truncamento. Ex.: estrangeiro
> estranja.
A formação do truncamento não leva em conta o
acento da base. Ex.: baterista
batera; flagrante > flagra.
O truncamento é sempre paroxítono.
f.Acronímia
A acronímia é também um
processo de redução, mas o seu domínio de intervenção é uma sequência de
palavras. Em termos práticos, a acronímia consiste na criação de uma palavra a
partir do(s) grafema(s)que se situa(m) no início das palavras que integram um
título ou uma frase. A forma resultante é foneticamente realizada como um
contínuo, e não como uma sequência de sons independentemente articulados. (Vilhalva
,2008)Acronímia – «Conjunto de processos morfológicos que levam à formação de
acrónimos, cuja particularidade é a de serem pronunciados como uma palavra
corrente; apresentam-se sob a forma de siglas, amálgamas ou de novas unidades
lexicais. A acronímia é um fenómeno neológico muito produtivo em língua, com
grande dinâmica, por exemplo, na atribuição de nomes próprios para designar
novos objetos, instituições ou organismos. Exemplo:
SENASP – Secretaria Nacional
Segurança Pública
ASCAF – Associação dos
Criadores de Frango
g.Sigla
Termo complexo abreviado ou nome
formado a partir das letras iniciais dos seus elementos. Uma sigla forma uma
sequência cuja pronúncia é alfabética, silábica ou ambas. Exemplos: CEEE, IBGE,...
h. Extensão Semântica
Consiste na atribuição de um novo significado a uma palavra já
existente, é um dos processos morfológicos de formação de novas palavras
(neologismos), isto é, um dos tipos de neologia, na troca de vocabulário entre
a língua geral e as línguas de especialidade, ou seja, um conteúdo semântico já
existente passa a adquirir novas polissemias através do seu uso.
Exemplo: Papel, substância constituída por elementos fibrosos de origem
vegetal, os quais formam uma pasta que se faz secar sob a forma de folhas
delgadas, para diversos fins: escrever, imprimir, embrulhar, etc.
Ex: Este papel autoriza a
entrega da encomenda. (recibo)
Ela tem um bom papel na novela.
(parte que o ator representa).
Não aceitam ouro ,só papel. (Dinheiro)
i.Por
transposição semântica:
Nesse caso, não temos um
novo significante, e sim, um novo ou significado atribuído ao mesmo
significante, sem perda do significado original. A lista, nesse caso, poderia ser longuíssima,
com formações imprevisíveis: repaginados (Veja=com nova aparência), xiitas
(idem=pessoa que é fanática por uma idéia), laranja (Veja=falso proprietário),
mico (idem=mau negócio), grampear (idem=prender), gato (idem=ligação
clandestina de eletricidade), turbinar, siliconar (idem=aumentar uma parte do
corpo por cirurgias plásticas), provedor (idem=ligação com a Internet), mala (O
Dia=pessoa inconveniente), montadoras (idem=fábrica de automóveis) etc.(Alves,1992).
Analisando os exemplos
supramencionados, passamos discutir até
que ponto esses exemplos podem ser considerados ”palavras”, visto que as palavras do ponto de vista morfológico são
estruturas ou unidades menores, sendo nomeados de constituintes morfológicos.
Para tanto para termos palavra é necessário que um radical, um especificador
morfológico, constituinte temático, especificadores morfossintáticos, que irão
realizar a flexão morfológica.
Na onomatopeia as palavras
formadas por uma sequência de sons, tendo um estímulo sonoro não verbal, os
exemplos citados “ mu-mu” , corruptela do mugido da vaca e “plaft-plaftt” o som
da roupa na tábua do tanque, nos passam a impressão sonora, e seus
constituintes não preenchem os requisitos morfológicos para a formação de
palavras. No redobro e duplicação cria uma terceira palavra, o segundo elemento
e o clone do primeiro, empregado em formas verbais, portanto, palavra
morfológica.
A amálgama, eponímia, o
truncamento, anomínia e a extensão semântica podemos considerar palavras com
suas particularidades e idiossincrasias, visto a manutenção dos processos
morfológicos na origem da palavra e duas derivações.
Arriscamos afirmar que os
processos levantados são recorrentes na Língua Portuguesa, tendo em alguns
casos o impeditivo do léxico, se é dicionarizada ou não, e a questão da
dinamicidade deveria ser acompanhada com atualização “dicionaral”?
3.
CONCLUSÃO
Este trabalho não esgota o
assunto e nem tem a pretensão e alcance para tanto, visa com base nos exemplos
coletados mostrar a diversidade lexical da língua, enquanto organismo vivo,
sofrendo influências na formação de palavras com recursos não morfológicos e
sua ortodoxia e os acréscimos de expressões com inclinação mais fonológica que morfológica
contribuição importante para a riqueza gramatical, na língua falada e escrita.
Poeminha Ocasional
É preciso xerocar a sentença desta decisão
Draconiana
Pois até para
um masoca , existem fardos mui pesados
Plaft soa o tapa na cara
No vagabundo
que só quer mu-mu.
Pois sendo,
estranja e analfa foi pego no flagra
Na lufa-lufa
diária brigando com a eletro telefonia
Nesta
brincanagem que ora funciona, ora falha
Fazer gato da
CEEE e crime afim no SENASP
(João de Deus, Julho 2012)
Referências Bibliográficas:
ALVES, Ieda. Neologismo: criação lexical. São
Paulo: Ática, 1990. ípios)
BASÍLIO, Margarida. Teoria lexical. 3. ed.
São Paulo: Ática, 1991. (Série Princípios)
COLLISCHON, Gisela. Acento secundário em
português. Letras de hoje. Porto
Alegre, v. 29, no. 4, p. 43-53, dez. 1994.
CRYSTAL, David. Dictionary
of Linguistics and Phonetics. Blackwell, 2001.
KEHDI, Valdir. Formação das palavras em português. São
Paulo: Ática, 1992. (Série Princípios)
LORD & ZUNG.
How does the lexicon work? Word. v. 43, n.3, p. 349-373. 1992.
LUFT, Celso Pedro. Novo manual de português,
gramática, ortografia oficial, literatura, redação, textos e testes. São Paulo:
Globo, 1996.
Sinto o cheiro das flores de
laranjeiras invadirem minhas ventas e a brisa suave da primavera já mostra sua
cara, dizem pelaí que este ano o desfile vai ser o maior de todos os tempos ,
deu na rádio que vão apostar quem coloca mais cavalo na rua, upa pá pá, e aquele
baio frente aberta a pouco arrocinado vai ser a flor de estampa do piquete, mas
o rosilho do guri do patrão, ficou manso de boca e trote macio, me desculpe o
patrãozinho, mas ficou lindo inté pra o montar das moças, um fachadão.
Me alembro quando vim pra estancia,
diz que meu pai babou um calavera a facão numa tasca, por causa de trago e
uma china candongueira e só teve tempo
de apanha as pobrezas, mete numa carroça, vim de contabrando tapado com um couro
de boi , que a poliça tava na cola dele, e se aquerenciou aqui ,ficando de
posteiro neste fundão, por gratidão do dono das terras, pra ocasião em que
cantaram os ferros e num vupt ele alçou a perna com o rapazola se tremendo todo
e mijando perna abaixo pelo cagaço do entrevero, achava que por ser doutor era fácil cobiçar a
percanta novinha na zona, preferida do zarolho maleva que já trazia mais de dez
mortes nas costas, ficou sabendo tempo depois que aquele moço era filho de um
estanceiro rico e tinha campos que numa galopeada das baguala levava bem uns
dois dias pra cobrir tudo.
Me criei guacho e xucro, sem sabe lê
nem escreve, minha mãe ficou na cidade,
dizem que virou mulher da vida e morreu de doença do sangue e fraca dos “polmão”,
meu pai tempos despois veio a morre emaranhado numa cerca de arame farpado
quando voltava da venda com o sortido e ficou lá a noite toda e só foi
encontrado no outro dia na soalheira ,cozido , de tanto vinho que bebeu.
Fui mandalete nas lavouras de arroz,
sempre com um casquinho de chifre, pras precisão de se um acaso fosse picado de
cobra, que cruzeira naquelas banda era mato,curei bicheira, castrei touro, comi
os bagos na salmoura, muita novilha atracada não deu pra salvar o terneiro e o
nonato fervido com pirão na pimenta era a bóia para guentar o tirão, fui
coimeiro nas cancha de osso, alambrador,
esquilador, changueador, domador, as vezes, a troco de fumo e canha, e sendo
depenado nos cabarés com pinguanchas ligeiras de beiço pintado e olhar rebenqueadores,
mas meu oficio que sempre me gustó foi o de lonqueador, lida de horas a fio,
courear, preparar o couro, limpar raspando os pelos, fazendo tentos, tranças,
costuras e retovos. Arreios de meu
feitio correram fama e ganhei uns trocados, e lhe garanto se não fosse esta dor
nas costas tava até hoje lonqueando e fazendo garras.
A pequena ponta de gado foi mermando,
as galinhas ,as ovelhas, só restou este cusco ovelheiro me fazendo companhia,
numa magreza de dar dó, uma angústia, ralho com ele, espanto, mando se
aquerenciar noutro rancho, mas nada, parece que nem é com ele.
Não respeitam os mais velhos, nem
adeus eles dão, passam pela gente e nem olham, se alojaram na casa grande,
puxaram um fio dos postes que plantaram na estrada, é uma barulheira, não
consigo entender, ficam amontoados na frente daquela caixa que mostra gente lá dentro delasem prosear e nem
mesmo se olharem, não tem roda de mate nem tampouco de causos, e este piá sotreta tá sempre aqui no galpão
espalhando meus tareco, até meu pelego presente do seu Dionísio na ultima comparsa
que fizemos, a martelo, tá com o carnal todo rendado e cheio de pulgas deste guaipeca
de fresco lá da cidade, ah se não fosse esta dor nas costas, dava uma sumanta
de relho no pai dele, passava urtiga braba na bunda do guri e botava campo fora
com a cachorrada atrás.
Mas hoje, tem desfile .Madrugaram na
estância, carnearam ovelhas e novilho abriram um valetão, espetos de lado a
lado, canha a la farta, música ,arreios e aperos luzindo, tudo de pilcha nova e
umas camisas da mesma cor dizendo sei lá o que. Ah. Mas hoje tô um pouco melhor
fiz uma infusão com ervas, álcool e passei nas costas , remendei as garras ,
tomei banho na cacimba, ajeitei a carapinha, que já mostra uns flocos de
algodão, bombacha de grivo com meu nome bordado, jaleco de couro de capincho,
lenço vermelho, camisa xadrez, as botas com mossa das esporas garroneiras, a
guaica lonqueada, trançada e enfeitada com os cartuchos do chimitão das
confiança, e meu chapéu pança de burro, que muitas vezes foi minha casa nas
noites de ronda, sol inclemente e frios de entanguir , e meu lunanco já tá pronto prum
quero , não me misturei na festa, vou esperar aqui na sombra e sigo com eles rumo a cidade,
já sinto o tropel, já tão chegando , levanta cusco , vais de escoteiro a meu
lado, pachola , ouvindo as palmas do povo, vamo ,tchê , a dor nas costas tá
aumentando e este cavalo não consigo achar a volta, a dor tá aumentando, vou
tomar meia de canha com butiá e aguento o repecho, já tão na curva do açude e
na frente vem o patrãozinho e o piá entonado.Ah. Montei e tô junto do piquete,
mas eles não me esperaram, continuaram, ah se não fosse esta dor ,dava uma
galopeada e raiava com estes borra-botas, onde já se viu deixar um parceiro prá
trás, e tu jaguara sarnoso, nem pra acoar tem força ou morder as patas
destes matungos.
Na estancia ,encilham, montam ,formam o
piquete , o porta bandeira na frente com brasão da cabana, referência na
criação de cavalo crioulo, rumam para o desfile, contornam o açude , entram no
corredor e sob a centenária figueira, um destinto lenço esfarrapado, numa cruz
tosca carcomida, desperta a atenção do guri que indaga o pai, de quem é aquela
cova.
__ Não te importa ,dizem que que aí
enterraram um negro véio, que se meteu a domar um cavalo maleva, levou uma
rodada e se planchou com as costas na cerca de pedra da mangueira, ficou
entrevado e morreu, e como não tinha ninguém por ele , colocaram ele aí, pra
servir de adubo e bóia pras formigas, e nem com reza braba conseguem tirar este
cusco chaguento só pele e osso de cima dessa sepultura.
NA. Os erros ortográficos, devem-se a
fala do narrador da estória.
Quando
o trem resfolegou na estação, deixando atrás de si , um rastro de fumaça,
lágrimas e infância perdida. Quando a retina plasmou a moldura dos campos e o
contorno dos cerros. Venâncio
acomodou-se no banco de madeira com a trouxa de roupas contra o peito, e lançou
a chispa de seu olhar em direção ao futuro.
Anos
mais tarde, com os filhos espalhados, esmolando nos sinais, a mulher que morreu
cedo, na fila interminável da previdência social. Os lábios grossos ressecados,
mal seguram as baganas e o tremor e inchaço são sintomas do trago e fumo.
Não
mais o verdor dos campos, cancha reta, jogo de osso, truco, galpão e siesta nos pelegos. Albergue e sopa do
pobres. Portas na cara e desprezo. O brilho de outrora, é opaco, a voz roufenha
repete a ladainha, e perturba quem espera ônibus no fim-da-linha.
“ Foto, olha a foto, fotooo”
O
vento da primavera mostra seus primeiros sinais e as juntas doridas alertam que
o mês será chuvoso, ouve que num parque da cidade há grade acampamento, festas
e poderá catar latinhas para vender e quem sabe, as sobras da festança lhe
sejam alcançadas, para aplacar a fome que é sua parceira “hace tiempos”.
Negro
forte, num upa estava no lombo de algum malino,
por diversão e farra, garantindo o municio e
os vícios , e um chego na zona de meretrício , onde as chinas
candongueiras e de pernas grossas amainam o minuano e tornam as noites mais
aconchegantes.
Os
caminhos são os mesmos, as avenidas largas da indiferença, de cada ser
ensimesmado, nos labores da faina diária.
Sob
a marquise no meio da cidade que pulsa ao redor, a saudade dói e corrói como
ácido, o vento da madrugada uiva em seus ouvidos, batendo de encontro ao rosto
aguça os sentidos, máscaras de granito e ferro, luzes frias e insensíveis
balouçam, passos ressoam na calçada, risos vagos e ilusórios, seres indefinidos
e tristes. A marginalia circula livremente, o racismo salta aos olhos dos
homens da justiça e ser negro é crime! A cor da pele o estigmatiza, a chacota e
o ridículo doem mais que mil chibatadas ou ferro ardente em brasa. Os bêbados
vomitam verdades no rosto da sociedade perplexa, órfãos do destino imploram
pão , moedas piedosas caem em suas mãos.
Encolhe-se
no fétido cobertor carcomido e cheio de pulgas, mero espectro, onde a noite em
pesadelos, cavalga fletes de pelo dourado, com seu aperos de prata brilhantes, carona, lombilho, pelegos e badana, a
moda da fronteira, e a voz do bisavô , mansa e pausada, atravessa o oceano e
traz a Mama África para acalentar seu sono.
Foram
cativos em diversas aldeias, seguindo em fila indiana, presos ao libambo , atados pelo pescoço a outros
infelizes, os doentes e insubmissos abandonados ao longo dos caminhos,
gargantas abertas para medo aos demais, carregavam sacos com pedras e areia,
para aumentar a resistência e o suplicio, como premio por viverem ganhavam ração
e fumo e aguardente, eram batizados e obrigados a obedecer e temer um Deus que
não era o seu. Mesma cor, falares diferentes,
igual destinos, mesma sina, jamais haviam visto o mar, um navio, um homem
branco, temiam ser devorados por seres antropófagos na outra margem. Nus,
cabelos raspados, quase sem água e comida. Epidemias avassaladoras, jogados ao
mar os corpos, de volta aos seios de Yemanjá, quando batia forte o banzo,
levando-os a loucura e suicídio.
Cata
lixo em meio ao Parque, revirando restos, olha aparvalhado moças e rapazes,
pilchados, cheirosos, como se obedecessem a um manual, contrastando com os
tradicionais autênticos , sem rédea ou bocal, que chegaram neste lugar e como
desbravadores de outrora, conquistaram o espaço, onde foram segregados com seus
animais, para hoje após os reconhecimento do poder público e adoção pela grande
mídia, virar ponto de referencia.
A
noite fria enregela os ossos, carros temáticos desfilam na avenida fronteira ao
rio que banha a cidade, aplausos, fotos e turistas.
Os
principais jornais noticiam no dia seguinte, estampam manchetes de capa “
DESFILE TEMATICO, NOSSA RIQUEZAS “, encerra a Semana Farroupilha.
Na
parte sobre a cultura africana trazendo o Rei Congo e a Rainha Mina, atabaques, Lanceiros Negros, junto ao
meio-fio próximo a arquibancada, uma figura imponente com um saco preto na mão,
tirador de estopa e vincha na
carapinha branca, cata latas, olhos castigados pela luz, molambo eivado de
cicatrizes pelo corpo e na alma, moldurando um gaúcho despilchado e pés no chão, esquecido e desprezado, correrá
o mundo em contraponto com a beleza do desfile.
No
derradeiro estertor, na campa onde repousa, aponta na banca de revista, e
entredentes, sentindo a agulhada no peito, num supremos esforço balbucia, na golfada derradeira de sangue:
Análise
do Poema em linha reta, de Fernando
Pessoa, na voz de Osmar Prado
João
de Deus Vieira Alves
Lucas
Reis Gonçalves
Por afinidade, gosto ou (a
ilusão de menos) trabalho, selecionamos a obra poética de Fernando Pessoa para
realizar a análise fonológica proposta pelo cronograma da disciplina. Não
apenas uma “obra poética” do bastante venerado poeta português, mas a
realização oral dessa obra. Dentre as tantas interpretações que circulam pelo
meio virtual, uma delas nos chamou a atenção: Osmar Prado, na novela O Clone, fazia um personagem alcoólatra
que lia, e não só lia, falava Fernando Pessoa em diferentes situações da trama
novelística. E, numa dessas, pego no flagra, com o uísque na mão, ele desatou a
declamar o poema mais que famoso Poema em
linha reta. E foi por aí que iniciamos o namoro com o material. Pelo Clone, vê só.
A gravação, como quase
tudo hoje, está disponível no YouTube – site de compartilhamento de vídeos que
dispensa maiores apresentações. Com base nela, numa duração de aproximadamente
dois minutos e meio, recolhemos informações suficientes (e até demais!) para
execução da análise em questão.
Ressaltando aqui que a
gravação utilizada de fonte para a coleta de dados provém de um trecho de um
episódio d’O Clone, é importante
também lembrar que o texto falado pelo ator não coincide exatamente com a obra
original. Adaptando algumas coisas para a situação em ação e cortando outras, o
personagem de Osmar Prado desenvolve a sua leitura sobre o poema de Pessoa.
Assim sendo, o discurso que importa a nós, nesse momento, é o do personagem. E
é ele que é transcrito aqui, com suas versões em transcrição fonética e
transcrição fonológica:
Antes de iniciar a análise dos
processos em si, seria interessante destacarmos os desconfortos que tivemos em
relação às transcrições fonética e fonológica.
Primeiro, e com grande intensidade, a alternância evidente entre as
fricativas alveolares ([s] e [z]) e as fricativas alveolo-palatais ([S] e [Z]) na fala de Prado,
como em
[iÈew
kiÈta0t«Z
8 ÈvezIs ÈteøU
ÈsidU
XiÈdZikUlU
abi 8ÈsuXdU]
Como se vê, há uma clara variação da pronúncia do ator. Parece
haver, dentro do discurso todo, traços do sotaque carioca – traços esses em
evidência na problematização proposta – que, naturais, permeiam a declamação.
Em momentos de maior ênfase, ele dá prioridade às fricativas alveolares. Já quando corre rapidamente o verso, cai em
algumas fricativas alvéolo-palatais -
ainda que, às vezes, fracamente.
O segundo desconforto, porém muito menor, é provocado também pelo
sotaque carioca. No uso das róticas em posição de coda, como em [abi 8ÈsuXdU] exigiu um particular cuidado durante a audição. Fora isso, o
trabalho foi o mesmo. Cansativo e bastante relativizado.
Agora, quanto aos processos, podemos começar pelos níveis
hierarquizados através das aulas da disciplina. Ou seja, a partir da ordem de
apresentação dos processos fonológicos produzida em aula, iniciaremos a análise
de cada processo e sua ocorrência no material produzido pela declamação do ator
da novela.
1.Apagamento
Temos, em alguns
determinados momentos, a supressão de um elemento (consoante e vogal) no meio
de palavra, como em
Nesse caso, temos
supressão de uma vogal [i] (ou semi-vogal [j]) e uma consoante [s] ou [Z]. Conforme o estudo da
Fonologia, esse processo de apagamento é comumente chamado de síncope.
Outro tipo de apagamento
corrente na análise fonológica é a apócope, que define a supressão de elementos
no final da palavra. Esse tipo de apagamento ocorre também na fala do poema de
Pessoa em situações como
Nesse último trecho de
fala, temos um apagamento da líquida final /r/, o que não deixa de caracterizar
o evento como a supressão do elemento no final da palavra.
Há também, funcionando
como apagamento, a monotongação, que suprime uma vogal do encontro vocálico
como ditongo. Vê-se, por exemplo, em
Em ambos os casos, temos
o apagamento de elementos no interior das palavras.
2.Assimilação
Assim como o processo de
apagamento, as assimilações tomam lugar de vários versos do poema. Temos, por exemplo, a assimilação da
nasalidade pela vogal que a antecede em passagens do tipo
/ÈviL nosenÈtido mesÈkiøo
Èe
iNÈfame Èda viÈleza/
ou
/Èa
Èa
ÈkeN meÇdERoÈvi dealÈgueN Èa ÇvozuÈmana/
Em outros momentos,
encontramos o vozeamento de fricativas pelo fato de estarem na posição anterior
a um elemento sonorizado, como em
Dentro do discurso de
Osmar Prado, encontra-se um caso de inserção de uma vogal (breve) para a
pronúncia da palavra ‘absurdo’ em
[iÈew
kiÈta0t«Z
8 ÈvezIs
ÈteøU
ÈsidU
XiÈdZikUlU
abi 8ÈsuXdU]
4.Crase
Temos uma situação
especial, que pode talvez vir a ser definida como apagamento, mas preferimos
tratar como crase. O encontro de duas vogais, formando uma (no caso a ser
exposto, uma glide), seria capaz de definir esse processo que pode ser visto
aqui:
Aqui as vogais de mesmo
som das duas palavras acabam se combinando e sendo pronunciadas conjuntamente.
Torna-se possível assim, pelo ritmo e pela fluidez do texto, reunir os fonemas
em apenas um fone só.
Conclusões e observações
De largada, assumimos uma
conclusão óbvia e bastante presente no decorrer do trabalho: o trabalho. A
labuta toda pra produzir – principalmente – as transcrições e ouvir e reouvir o
áudio da declamação do poema nos fez virar a cabeça umas quantas vezes, umas
para trocar de ouvido, e outras pra arejar ela própria. A voz do Osmar Prado,
ator decorado há muito, já se tornou irritante. Pobre homem.
Mas é aí que está a graça. A
partir desse esforço todo, na tentativa de escutar uma fricativa mais posterior
ou mais anterior; de ouvir um /r/ carioca e não um /R/ gaúcho; de entender onde há apagamento, onde há epêntese; a
partir de tudo isso, visualizamos algumas fronteiras e limites que desenham as
ferramentas e os terrenos da Fonologia e da Fonética.
Já no âmbito da especificidade
do discurso poético, o esquema é outro. Nota-se facilmente a peculiaridade
desse tipo de fala. Contrário a uma conversa espontânea ou uma gravação de
certo corpus delimitado, a poesia declamada adquire aqui um caráter único na
sua realização. O ritmo, a sucessão de fonemas, a ênfase em determinados pontos
da pronúncia são características que moldam uma espécie de fala
pré-estabelecida, fala essa com um fluxo de linguagem ágil e correto. Correto
no sentido de completo – unitário. Esse fator de unidade dá a poesia uma sutil
ideia de texto decorado – um texto exato. Não é à toa que esse fluxo acaba
aglutinando todos os versos, um sobre o outro, verso sobre verso, até confundir
a cabeça de quem os analisa.
Tudo isso para explicitar a
dificuldade pela qual passamos e por qual, provavelmente, todo o fonólogo já
passou algum dia.