segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Ilhazinha Qualquer





Barracos no meio d'água
sacos de lixo entre estrumes
Lodaçal ódio calar


Uma mulher vai apressada
Um gato mia apressado
Um cavalo vai apressado
Apressadas… as portas fecham

Tchê , que vida fodida, meu Senhor















quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Troca-se ( Não aceitamos devolução)










Troca-se , pseudo intelectual, diabético

policial aposentado, escritor e cardiopata

licenciado na área de humanas, patético

Acredita ser poeta , contista, esquerdopata



Por alguém que faça consertos domésticos

hidráulicos, mecânicos,construção, elétricos

não curta futebol, comédia e filmes épicos

não utópico,não cozinhe,sem papos retóricos



sem essa de elucubração, “papo cabeça”

que tenha planos concretos possíveis e sérios

apenas concorde,fique em pé, ouça e obedeça



que não ria feliz, alegre, não diga asneira

contrito, casmurro, enroupado em mistérios

e, que não chore por qualquer besteira

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Bairro Bom Fim - Anos 80 - Porto Alegre

Com a devida vênia de Gregório de Matos





Descrevo que era realmente Naquele Tempo o Bairro Bom Fim



 Em cada arbusto um enorme puteiro

 Onde se esgueiram mano e maninha

 Nos rostos, ruge, lágrimas e covinha     

 E trocam o corpo pelo vil dinheiro


 Em cada banco um gigolô faceiro

 Que vigiam o putinho e a putinha

 Sodomiza, chupa, deita, é bonequinha

 No Auditório e no imundo banheiro



 Muitos  "punks"  despudorados

 Chutados por homens fardados

 Sangram a perda de um rim

                                                                        

 Ocidente e Scaler de boêmios lotados

 O Fedor e Baltimore continuam fechados

 Dói no peito o velho Bonfim






terça-feira, 25 de junho de 2019

O Piá da Escuna

Pedro é seu nome
mãos firmes, velas insufladas
Pedro, descamisado, descalço
verdes olhos, cabelos queimados de sol, revoltos
e Pedro , sorri e brinca ao vento, livre

Pedro no pescoço ostenta
queimadura do cânhamo
cicatriz, maresia, gaivotas

Pedro , piá sofrido, curtido
mira o mar de frente

Grumete na areia
Capitão do Mar

Pedro Bala, Comandante


* Garopaba,SC, Alguns verões

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

José e Pilar - Documentário (Resenha)

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Resenha Documentário José e Pilar

Gravado nos anos 2007 e 2088 pelo documentarista, Miguel Gonçalves Mendes uma produção brasileira e espanhola. Trata-se da intimidade do escritor português e o relacionamento com Pilar. Podemos constatar que o escritor, usa no seu processo de criação, ouvir música clássica e jogar paciência (solitário) no computador antes de começar seu labor. Permeiam suas interações com seus admiradores respondendo perguntas e se posicionando a respeito de Deus, trechos de seus livros que vão sendo recordados, através das documentários.
                Além disso, a rotina de Saramago, de maneira mais natural possível, as refeições, de pijama, uma enorme biblioteca, viagens realizadas. Aos críticos sobre a figura de Pilar, o que estaria Yoko Ono para John Lennon, não transparecem no documentário, sim como mulher dinâmica e parceira fiel e incentivadora, musa e fonte de inspiração do escritor. Tudo é por Pilar.
                Quando a doença se agrava é o momento que emociona e causa tristeza, interrompe sua viagem, e acaba sendo internado. O recurso cinematográfico, é tosco, beirando ao amadorismo, existem vozes em ao fundo que atrapalham a fala dos protagonistas quase em “off”, a mescla dos idiomas (português e espanhol) atrapalham bastante a compreensão, mas perpassa a ideia de uma intimidade “natural” que soa forçado pela presença da câmera.
                Enfim, como escrevi e verbalizei em aula, SARAMAGO, é o próprio Elefante da Viagem. Fico com as frases iniciais do filme. “Como comunidade a espécie humana é um desastre, e diferença entre morrer e viver é o estar e o não estar.”


João de Deus Vieira Alves


Ensaio sobre a Cegueira -Blindness -Resenha do Filme

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Blindness – “Ensaio sobre a Cegueira”


O filme tal qual o livro começa com a cena pormenorizada do primeiro ataque de cegueira sofrida por um motorista num semáforo de uma metrópole qualquer do mundo. Aos poucos os personagens principais vão sendo apresentados, o médico oftalmologista, o menino estrábico, a prostituta dos óculos escuros, o médico e sua esposa são confinados, começam a chegar os demais pacientes no manicômio. As cenas são perturbadoras no encontro do primeiro casal, leva o espectador menos avisado a esfregar os olhos a fim de dissipar a névoa, o local físico onde os cegos estão alojados, vai aos poucos degradando-se, tal como os humanos. (O narrador num primeiro momento, pelo homem de tapa-olho (Danny Glover), a voz do megafone é perturbadora). A cena da pá e melhor detalhada no livro. A cena da morte do ladrão de carro é mais impactante que no filme, o cego chefe da ala 3 (Gabriel Garcia Bernal) imitando Stevie Wonder  e cantando a canção “ I Just Call To Say I Love You” cego de nascença e ícone da musica pop é impagável, os tiros quebram a harmonia propositalmente usados com o volume redobrado, o despojos dos bens são extasiantes, fiel ao livro. A cena do adultério, funciona no filme no livro, se a mulher do médico tivesses outra reação contrária a passividade, denunciaria que ela não estava cega, tanto que ela confessa que viu. Na sequência desde a escolha das mulheres que seriam carnais, libido e luxúria, em troca de comida, há uma tensão crescente, a brutalidade no filme continua nauseabunda, o amargor na boca, produz a sensação de um soco na boca do estomago por um lutador de boxe peso-pesado. As cenas do estupro coletivo são descritas em plano fechado, em meio a névoa e num jogo de luz e sombra, fixando-se em dois personagens, porém os gritos horrendos ao fundo, passam verossimilhança ao que está acontecendo. A cena da cega morta a socos durante o estupro, seu translado nos braços das outras mulheres de volta à cela, sua limpeza por elas, visando devolver-lhe um pouco de dignidade, martela a cabeça do espectador/leitor e nota-se que ela não termina ali vai além do filme e livro. A morte do  cego Chefe Ala 3 e o cego da contabilidade , apanhando o revólver disparando a esmo, o horror do incêndio, o fogo como como elemento depurador, a libertação, guiadas pela mulher que que enxerga vagam sem rumo pela cidade em ruínas, tais como zumbis, cenas impactantes, quando a mulher do médico, no supermercado faz escolha de alimentos, é derrubada por cegos, que com o olfato aguçado, percebem o cheiro de carne aguçado, percebem o cheiro de carne , dos salames que ela carrega. A chuva benfazeja é depurativa e faz com que lave corpos e espíritos doridos. O cão das Lágrimas tem seu papel reduzido em relação ao livro, talvez humanizado por juntar-se a trupe, enquanto na mesma escadaria em desce quatro cães vadios, devoram a carcaça do cadáver de um homem.


João de Deus Vieira Alves