sábado, 1 de dezembro de 2012

Elegia a um povo a beira do caminho


terça-feira, 27 de novembro de 2012

Negro Lanceiro


( Nara Elizene e Tio Ornés , o autor e Tio Luiz,inspiradores do Poema, seres iluminados verdadeiros herdeiros de "Porongos)

Poema vencedor Troféu de Primeiro Lugar do Concurso Literário Gaúcho -Poesia do ENART 2012. 




Negro Lanceiro

Autor: João de Deus Vieira Alves


baú empoeirado das lembranças
envoltos pela bruma, em fragmentos
correm varas da mangueira do tempo
libertando  tropilha de recuerdos.
vêm do fundo do campo d'alma
rebentando a corrente dos olhos.
voz rouca, embargada
narrando  “cosas”, com calma

muitos , muitos janeiros
embaçados de viver e sofrer.
barba e cabelos de algodão  
dando à fisionomia  aguda impressão
velhice, ternura, sofrimento .
olhar vestindo, os piás, calados
histórias, causos, lendas
temores, assombrações, bravura.

cativos na Mama Africa
garroteados ao libambo seguem
os doentes e fracos abandonados
gargantas abertas, o medo , o horror
epidemias, suícidos  ,loucuras
pesadelo, realidade, escravidão
liberdade utópica, traição

tempo de  chagas abertas
rompem torrentes, como coriscos
retumbam campinas na mente,
ecos do cantar de ferros e aço.
Noventa e três, volta com força
Gumercindo , e sua gente
Carpintaria, Salsinho, Campo Osório
cruentas batalhas, sangue irmão derramado
defendendo ideais, que diziam ser justos.

gritos hediondos, rouba-lhe o sono
 trezentos degolados do Rio Negro.
como esquecer o Cabo Duza,
castelhano do peito vermelho.
Nicolau, preto e soldado
de a cavalo, lança à destra..
velho Domingos, mateiro desbravador,
condutor de tropas, nas coxilhas e canhadas.


Vinte e três,  uma  ferida aberta ...viva
pica-paus, chimangos, rebeldes, maragatos
ombreando lado a lado, voluntários
Passo Fundo a Pedras Altas.
no combate da Conceição
pisou o Barro vermelho da lagoa
mescla do sangue, seiva e fibra
dos bravos que tombaram naquele chão.

Depois veio a Paz? Não.... as esquinas !
 miséria, o esquecimento
 farda feita em frangalhos
Sem soldo, nem  provimento
no exílio dos asilos
árvore frondosa de outrora
peleando com nacos de vida
relegado, doente e só.

uiva o minuano , ouvidos cansados
balançando  cruzes  de madeira toscas
campa fria,  grotões esquecidos.
não mais coxilhas,   o corredor deserto
invés de campos, abandono e dor
cavalos de papel, a flutuar no etéreo
clarins mudos, sem toques de avançar
restou a tristeza, nesta cadeira-prisão

fogo morto nos galpões
coberto baixeiro sobre penas mortas
grades, concreto como horizonte
Adeus, Nego Venâncio, cavaleiro de luz
manancial de águas claras
somos  parte de ti, meu irmão
despilchados, esquecidos
Pretos.Pobres.Provisórios.Pé-no-chão



sábado, 3 de novembro de 2012

Frases,ora frases...




Da Posse


“ Algumas pessoas adotam filhos, animais de estimação e uma série de quinquilharias inimagináveis; Os poetas adotam uma mesa de bar, um canto só deles, e disso não abrem mão nunca"








Ninho desfeito

"Filhos são pássaros,voam, quebram a gaiola, e as cobertas amarfanhadas, dão a exata noção, de ninho vazio..."




Tristecidade

"Sempre tive mais admiraçao por aqueles que ficam serio, as vezes, carrancudos;e menos por aqueles que riem de tudo e para todos,porque esses sempre escondem alguma tristeza..."

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

BICHOMEM

A poesia de Manuel Bandeira abandona os  meios acadêmicos e fere os olhos  dos professores e alunos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, chaga aberta na calçada da Oswaldo Aranha, esta é a Casa Lar do BICHOMEM. 
                                       
                                       



Bichomem

O homem é bicho

o homem é lobo do homem

bicho-homem, homem-bicho

resto dos restos, dignidade perdida,

perde o nojo, vive o gozo

mata a sede, sacia a fome,

a sombra do ontem

do que foi já não lembra

sem roupa, sem teto, sem nome,

se foi o amor próprio, só restou vicio e esquina

solidão e desprezo, a rua é seu lar.
JOAO DE DEUS VIEIRA ALVES















sexta-feira, 5 de outubro de 2012

SANGRANDO


Éramos jovens tínhamos apitos, andar alegre e decidido, seria mais uma traquinagem afinal. Homens mais velhos puxavam o cordão, de uma proscrita UNE, camisetas com estampa do "CHE", uns fumavam maconha, outros bebiam cerveja preta, outros iam por não serem covardes, outros por ideais, e uns por  Romantismo e as gurias. Ano de 1979. Inauguração da Praça Argentina, por um Ditador de  Opereta. Todos cantavam a canção abaixo.
Uns fundaram partidos e hoje se digladiam em campos opostos, outros mantinham a chama estudantil acesa de Paixão e Barbosa. Éramos jovens, ao vento, sem documentos, com lenços,para enfrentar o  gás lacrimogêneo, e bolitas para os cavalos escorregarem.
"Não Chores Mais (No Woman, no cry)
Gilberto Gil
Bem que eu me lembro
Da gente sentado ali
Na grama do aterro, sob o sol
Ob-observando hipócritas
Disfarçados, rondando ao redor...
Amigos presos
Amigos sumindo assim
Prá nunca mais
Tais recordações
Retratos do mal em si
Melhor é deixar prá trás..".

SANGRANDO

A massa, plebe ignara
Segue seus lideres, como ovelhas inconscientes,
Rumo ao matadouro.
Seres inanimados, sem vontades nem anseio
Apenas meros executantes de atos autômatos e dispersos
Gritam nas ruas
Vociferam nos microfones mudos
E jogam a vida no beco escuro da omissão
Tudo resume-se em pequena parábola
“Em terra de cego quem tem um olho é rei”
Para mim é aleijado ou monstro
Um verdadeiro anormal
Para movimentar tanta gente
Tolher tantas idéias, fazendo verdadeira lavagem cerebral

Robôs do século vinte! Uni-vos!
É o brado retumbante que aturde os confins da subconsciência
E, todo aquele que fugir a regra
Será queimado na fogueira do radicalismo

A onda tem uma seqüência assustadora
Tal qual bola de neve crescendo a olhos vistos
O objetivo é um só:
O bem estar do ego do senhor

A segurança cuida de todas as irregularidades
A vigilância é constante
Os jornais amarelam nas bancas
Esperando a vez de virem a ser
A grande palmatória dos lúcidos que não aderiram

Do alto do prédio construído com suor e sangue
Um martelo ressoa forte na cabeça de acéfalos humanos
Sobre este imenso barril de pólvora
O cheiro de revolta irrita as narinas
Postado ao lado da cruz que carrega
O homem sente o próprio semelhante degenerar
Num ato desesperado oferece a mão descarnada e fria
Onde o mínimo de solidariedade já exauriu-se
E, julga ouvir a voz abafada dizer:
_ Tudo bem cara, estou apenas sangrando...
 
JOAO DE DEUS VIEIRA ALVES








terça-feira, 2 de outubro de 2012

POVO DO MATO- CAINGUANGUE


"Eles estavam aqui antes dos brancos,antes do negros, antes dos exploradores, vivem ? em reservas, a poeira da estrada é o que lhes resta, a miséria e a fome, e o pouco de terra que lhes resta, querem tirá-la , por aqueles que vivem se queixando nos noticiários da televisão, se tem seca esperam que o governo ajude, se chove  demais querem que o governo ajude. Vender balaios, dançar no calçadão, e esperar as migalhas dos passantes. 









Um barco sem rumo, sem timoneiro
Um andarilho, vagando sem dinheiro
Ambos parceiros

Poço sem fundo, sem saída
Arvores frondosas de outrora
Hoje, carcomidas, tombadas

Errantes dos becos escuros
Fabricantes de cestas
Povo do Mato, Cainguangue

Coxilhas, flechas, flechilhas
Calçadas, moradas, derrocadas
Lanças partidas, vidas quebradas

Tetas magras caídas
Filho desnutrido sugando
Orgulho ferido, enterrado

Donos da terra
Mãos estendidas, esmolando comida
JOAO DE DEUS VIEIRA ALVES