sábado, 11 de maio de 2013

O Visitante




            Ele amanheceu sozinho e atônito. O amargo na boca, a sensação de corpo pesado, o sonho fora tão real, e o cinzeiro transbordando, as taças de vinho no tapete junto às almofadas amarfanhadas, lhe deixam mais confuso.
            O prédio fica na rua mais movimentada da grande metrópole, um arranha-céu imponente, dominando a paisagem. Destaca-se dos demais, por sua arquitetura futurista.
            Hermenegildo Dantas caminha pensativo, sorumbático, sozinho em meio à multidão que o cerca, suando desconfortável, dentro do terno de grife famosa e gravata de seda italiana, a mão gordurosa, quase deixa escapar a pasta de executivo abarrotada, sentindo os espinhos furar o papel celofane e fustigarem a outra mão.
            Fogo ardente! Queima o peito. Adrenalina insuflada. Correr...o nada é tudo que se quer.
            Adentra o  prédio, pára quando vê o homem de terno e camisa preta. Deve ser algum novo representante comercial, que fica tomando o tempo dos médicos, atrasando a consulta dos pacientes.Pensou..
            Na recepção, o guarda uniformizado lhe pede a identidade, ato continuo, apanha sob a mesa e entrega-lhe o crachá de visitante. Despreza o elevador, sobe pelas escadas, afinal irá no 4º andar.
            As palpitações aumentam, cenho franzido, a dúvida e a incerteza martelam seu cérebro. Resfolegante chega ao corredor. Divisa a porta ao fundo.
            _ Sala 401. Entre sem bater. Mantenha a Porta fechada. Ar condicionado.  
            É aqui!
            Mãe exemplar. Esposa dedicada. Funcionária Padrão.
            Mulher idolatrada.
            Entra.

            A realidade crua, açoita seu rosto, o chão some sob seus pés, estarrecido, recua pé ante pé, fecha a porta sem alarde e sai.
            O suor encharca, como o calor sufoca. Os pés pesam como chumbo, sobe, cada vez mais, o olhar turvado, o coração querendo sair pela boca; Após uma eternidade, chega ao terraço, arrasta-se apoiado na casa de máquinas, nem mesmo a lufada de vento devolve-lhe a serenidade.
            Vazios imensos. Maquiagem de fantasias. Manequins? Andar...o nada é tudo o que se vê.
            Vozes mudas, línguas travadas. Anéis de fumaça, vapores de espuma. Engatinhar... o nada é tudo o que se tem.
            Solidão em grupo. Quereres.Música quebrada, cristais partidos. Arrastar-se...o nada é tudo o que restou.
            Chega ao parapeito.Sobe. Hesita...lança-se no vazio. Plana por instantes.
            Fragmentos. “Flahs-back” _ Amor chegarei mais tarde, tenho trabalho extra a fazer”, Não hoje vai ter “vernissage”, “ Não estou te evitando,tolinho, é só uma indisposição passageira.
            O chão aproxima-se rapidamente.  
            “Todos os amigos vão, fica chato, não ir “ ‘ Ciúme, bobinho, isso prova que me amas!”
            O baque surdo. Estatela-se de encontro ao solo, murcha como um balão furado. A turba acotovela-se ao redor, corpo grotescamente disforme, donde escorre um filete de sangue do canto da boca.
            A pasta aberta espalha o conteúdo na rua; Um buquê de rosas rubras, um porta-jóias, com a aliança de ouro que seria presenteada, o cartão com breve poesia “Te amo! Lúcia”
            Na mão crispada, o crachá.
                        “Visitante nº 401”

No elevador Lúcia,pensa: Logo hoje, aniversário de casamento, minha irmã gêmea que eu julgara morta veio me visitar, espero que o vestido  que eu tinha de reserva tenha  lhe servido, terei que convida-la para almoçar conosco.
            - Acho que o Gildo não vai se importar
Ao longe o som de uma sirene perde-se, na cidade calada.


quinta-feira, 9 de maio de 2013

PRÉ- CONCEITO



PARTE UM
Entro esbaforido no elevador do prédio do curso pré vestibular,após subir correndo três quadras em aclive, antes de solicitar o número do andar, com a mochila às costas, abarrotada de livros, a ascensorista, tentando ser cordial , fala:
  - Que bonito, o filho chegou atrasado, e o pai veio trazer a mochila.
   Já com o fôlego parcialmente recuperado , e a dor no peito minimizada explico que sou eu o estudante,com o pé na saída do elevador.
  - Eu também tenho um irmão que era vagabundo, e resolveu estudar depois de velho.
    Ecooa pelo corredor, a observação da ascensorista.
   
PARTE DOIS
1ª Pessoa - Silêncio quero ouvir a noticia sobre sobre este atropelamento e fuga, a minha filha está envolvida.
2ª Pessoa - Coitada ! É a motorista que fugiu ou a moça atropelada.
1ª Pessoa respondendo: Não! Ela  é a reporter ....(ui).
PARTE TRES
 O Estafeta Negro entrega o documento no protocolo, e ouve a queixa da atendente Branca , sobre problemas urinários e cistite.

 Estafeta Negro: Vá ao hospital de Clinicas e fala com a minha filha ela trabalha lá.
 Atendente Branca: Ah! Ela é recepcionista ou trabalha na marcação de consultas?
 Estafeta Negro: Não! É a Doutora Vitória da Silva, Professora Doutora  , Mestre em Urologia, em Harvard. Bom Dia. Tóimmmmmm
 

terça-feira, 7 de maio de 2013

Froid explica



          Cuidado, mas muito cuidado mesmo ao emitir conceitos definitivos, pois corremos o risco de mais cedo ou mais tarde sermos vitimas de tais colocações (sic).
            Nos bancos escolares das instituições militares, os instrutores são nomeados por sua competência e amplo domínio dos assuntos afins.
            Pois bem, tínhamos um instrutor de Legislação de Transito que era o “cara”, o kid, mas quando enveredava para área da  psicologia ai ele se perdia e eram os momentos mais hilários da aula. O “start” para tal relato, dá-se no momento que a principal causa de perturbação do sossego alheio são esses famigerados carros rebaixados, som no talo, musica de péssima qualidade, geralmente só o motora, ou por outra cheio de cara, sem uma mulher, e nestes tempos do politicamente correto, não se pode nem coloca-los no portas malas a fim de refletirem e escutarem melhor os seus “hit” ate sangrarem pelos ouvidos  com os tímpanos estourados.Mas sigamos...
            O nosso famoso instrutor ao exemplificar casos das verdadeiras barbaridades cometidas nas ruas ceifando vidas, foi buscar na sexualidade razoes para justificar esse mecanismo de compensação, afirmando que muitos motoristas, tem no carro representação fálica, ou seja , quanto maior o carro, camionete ,menor o tamanho do membro sexual. Deixemo-lo explicar “ Olha aqui gurizada, estes caras com som alto , camioneta, tem tudo o pau pequeno , isto quando não forem broxas”
            Belo dia ele chega atrasado e adentra o pátio, dirigindo uma flamante camioneta cabina dupla, musica gauchesca muitíssimo  alta, e não tinha como escapar, o único jeito era passar defronte a tropa que estava em forma, sendo pastilhada pelo disciplina do curso.
            Na sala de aula aquele silencio sepulcral , ele com sua tonitruante voz de trovão, sem ao menos dar bom dia, lascou “___ Nem vem seus “fiadaputas”, sei o que vocês estão pensando , este carro não é meu , é da minha mulher, o meu é um “Uninho”, todo fodido que nem radio tem” 
 







terça-feira, 19 de março de 2013

Enquanto a chuva não vem...


















Enquanto a chuva não vem...

Mateio solito ensimesmado de penas
O balé das pitangueiras contraponteia
aos pipilos das aves inquietas.
Sorvo as horas lentamente, na seiva rude das esperas

Enquanto a chuva não vem...

O balido das ovelhas, os  latidos do pastoreio
emolduram à tarde
As folhas secas  redemoinham,
e as salamandras dançam despudoradas e amorfas

Enquanto a chuva não vem...

Greta a terra ávida, sedenta.
A cor da palha guarda resquícios de verdor
O cincerro das tambeiras, nostálgico
O grito dos ta-hãs, o tuco-tuco sincopático ,
transmuta o som dos corredores

Enquanto a chuva não vem...

A taramela ruiu junto ao portão batido na revolta adolescente
Espero a volta um dia para o abraço final
Pois o adeus definitivo ainda espera  na equina
Sonhos almejados e quebrados pelos   planos desfeitos

Enquanto a chuva não vem...

Teus olhos mansos esfunecem na dadivosa bonomia
Preparando o material escolar, cerzindo o uniforme puído
No canto da pasta pedaço de bolo de milho e o suco ralo

Enquanto a chuva não vem...

O sinal da cruz na testa, e o mistério das estrelas.
Ensinando a pescar e dizendo que não há medo
Pois é  só o minuano uivando e tudo estará bem
No dia novo que se avizinha.

Enquanto a chuva não vem...

O mormaço multiplica os trilhos
A roupa larga e os sapatos velhos
A trouxa de roupa no, banco de madeira
O apito silva nos ouvidos, sofrenaço no peito
e ...o Adeus

segunda-feira, 11 de março de 2013

O DESAFIO DO 'SER" PROFESSOR E O RESGATE DA CIDADANIA ATRAVÉS DO ENSINO




            A partir do principio que o professor é o “repassador” de conhecimento, há que necessariamente haver uma troca entre ele e o aluno.
            O mestre, mesmo sendo portador do poder e o saber: a chave para o sucesso ou fracasso do ato pedagógico está com o aluno.
            Vivemos hoje em nosso país, ou melhor, continuamos com a desigualdade social, que transforma esta diferença palpável, dividindo grupos de crianças, pela condição socioeconômica, em desigualdades escolares. Se por um lado o ensino em escolas particulares tem fluidez, de outra banda nas escolas públicas, o professor hoje se encontra refém, dos problemas herdados pelos alunos (violência, baixa escolaridade dos pais, famílias desestruturadas), todo este caldo é canalizado e  torna o professor e por extensão a escola, como última tábua de salvação.
            Através dos programas sociais, trabalha-se a inclusão, e o aluno vai à escola com o objetivo primeiro de garantir o recebimento deste auxílio, em segundo lugar para alimentar-se, e por fim, o que deveria ser sua prioridade estudar.
            A compreensão de qualquer aluno tem direito ao sucesso escolar, é uma utopia, pois através das desigualdades e mazelas sociais, vemos injustiças, de mentes brilhantes não serem aproveitadas, e se perderem por caminhos escusos, ao passo que mediocridades grassam e proliferam. Pois obtiveram formação e diploma por meios fraudulentos e/ou por imposição de sua classe social e econômica.
             Como desaguadouro está o professor, enquanto formador de seres humanos, de membros de uma sociedade, de sujeitos singulares, diuturnamente desafiado a mover montanhas e continuar nesta árdua tarefa e sim poder contribuir na mudança deste processo, com brilho no olhar e aquele frio na barriga, cada vez que se deparar com mentes ávidas pelo saber, seja numa escola rica, ou numa periferia  violenta.    Resgate da Cidadania através do Ensino
Com base na Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, em Art 6º, “ São direitos sóciais  a educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e a infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição(1).” E Art.205 “A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando o pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho” e pelo que podemos depreender no texto Evolução  e Desigualdade na educação Brasileira, de Jorge Abrahão de Castro, notamos que  há ainda um longo  caminho a ser percorrido pelos governos e a sociedade visando minimizar ou zerar esta chaga social que grassa entre a população brasileira , que é sem dúvida alguma o espectro do analfabetismo, tanto  na acepção da palavra, como o analfabetismo funcional. Mesmo que recentemente tenham ocorrido avanços importantes na ampliação do acesso a todos os níveis e modalidades educacionais.
As adoções de Politicas Publicas  de inserção social, através de benefícios sociais, têm um hiato educacional, uma geração de analfabetos, semianalfabetos, pais despreparados e filhos desinteressados . Pois, herdeiros desta pobreza educacional, não tem por óbvio como inicializar a educação primeira em  seus lares.
Nota-se que a  taxa de analfabetismo dentro de uma mesma geração com o passar dos anos sofre pouca alteração, e a queda constatada dá-se pela escolarização da população mais nova e com a morte dos idosos analfabetos.
Além de vermos exposta as dificuldades  de concluírem , em tempo hábil, seu período de estudo temos os problemas da repetência e evasão escolar, mostrando-se mais acentuado na população negra, regiões menos desenvolvidas, municípios de pequeno porte, zona rural.
Há que se repensar o atual programa de alfabetização de adultos para torna-los  mais efetivos e, em seguida, realizar a ampliação de sua cobertura.
            Os desafios para as politicas públicas de educação básica no sentido de efetivação dos direitos à educação são muitos, tendo em vista o fosso existente entre gerações, o desinteresse pela educação dos pais e responsáveis, a desmotivação dos professores e a inércia do Estado, que ao criar mecanismos paternalistas, não atinge sua meta que tem como escopo a alfabetização e formação de cidadãos, visando o engrandecimento do ser humano em primeira instância e, por conseguinte de um povo e de uma Nação.    As politicas para as comunidades indígenas e quilombolas, são em sua essência, bem intencionadas, mas pecam pela precariedade de execução, pelo despreparo e desaparelhamento do Estado.   
         É triste e impactante quando vamos a campo, visitando famílias muitas delas disfuncionais, ou geridas pelo matriarcado, de constatar que as crianças frequentam a escola, primeiramente para serem alimentadas, visto que para a maioria esta é única forma de obter uma refeição regular no dia, em segundo lugar para que seus pais não percam o direito ao benefício social, que não raras vezes é usado, não em prol da criança, mas para satisfazer as necessidades dos vícios dos adultos.  
            Somos um País com grandes leis, estatutos, magistralmente bem concebidos nos gabinetes, mas pecamos em sua aplicabilidade, fazemos a ponte para depois fazer o rio. Temos uma enorme divida a ser resgatado com gerações e gerações de brasileiros, que nasceram e morreram analfabetos, satisfazendo a vontade sádica, de governantes e politicas que amordaçavam e mantinham o povo sob o tacão da bota, sendo usados como massa de manobra, pois povo sem acesso a educação, a escolarização, é povo que não pensa, e assim é facilmente manipulado.
Saudemos as politicas Publicas  de Educação Básica como bálsamo redentor e unguento para sanar as feridas e penas, miremos um horizonte  profícuo e promissor, pois através da educação e do saber, teremos uma geração que tomará nas mãos o seu destinos ,de seus pares  e seus descendentes.

sábado, 1 de dezembro de 2012

Elegia a um povo a beira do caminho